Bagagem ©
Categoria: Literatura

Sou um pedestre. Ou, como diz o escritor Jurandir Ferreira, sou um bicho carregador de mim mesmo. Além de me carregar, carrego todo dia uma bagagem que não é pequena. O usual são uma mochila e uma sacola. Na mochila carrego cartões, chaves, remédio, moedeiro, crachá, caneta, caderno, contas pagas para arquivar (e que nunca arquivo) etc. Na sacola carrego os livros (os da vez são: Morrer de prazer/Ruy Castro; Labirinto da palavra/Cláudia Lage), marcadores de página, alguma revista, segundos cadernos de jornais, algum texto avulso, celular etc. Dependendo do dia, ainda carrego guarda-chuva e alguma sacola extra. Com essa bagagem toda, subo de escada duas vezes ao dia – são dez andares. Se alguém me perguntasse se é preciso carregar tanta coisa, diria que sim, são coisas imprescindíveis. Não sei se você, rara leitora, é exagerada no quesito bagagem, uma tendência de quase toda mulher – e da qual alguns homens não escapam, como é o meu caso. As bolsas de quase toda mulher parecem contêineres. E contêineres exigem estivadores, função assumida pelos maridos ou namorados. Acha-se de tudo numa bolsa feminina. Só não se acha o que se quer em meio a tudo. Não é o meu caso. Embora a bagagem seja grande, está tudo mapeado: sei onde está cada coisa. Só não sei onde estou eu mesmo, bagagem perdida de si.

© Nota de canapé: Primeiro livro publicado da amadíssima Adélia Prado.


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    Angela Delgado
    22 de julho de 2013

    Falando em bolsa de mulher, em um dos meus livros que você NÃO leu (“Ephemeris, a idade do nunca”) há algo a respeito: “Minha bolsa só tem objetos indispensáveis: um livro; lenços de papel (“Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudades…”); o celular; um bloco de notas para inspirações súbitas; canetas; um band-aid; um guarda-chuva; uma lixa; um comprovante de Banco a ser retirado da bolsa ao chegar em casa; fio dental; uma lanterninha; uma bala que acabará ficando melada… Em suma, diga-me o que carregas na bolsa e te direi se és vaidosa, precavida, intelectual, hipocondríaca ou tudo isso ao mesmo tempo. Ficará rico quem patentear a bolsa com luz interna. Assim se pescaria com mais facilidade o objeto ambicionado, sem ter que ficarmos fuçando em meio a um turbilhão de coisas indispensáveis para se ir à padaria (estava esquecendo da carteira!); ao cabeleireiro; à casa de amigos ou simplesmente pôr o pé fora de casa. Para viajar, já não é tão simples. A esses ingredientes, junte analgésicos a gosto para dores inesperadas e, por último, como claras em neve, a passagem, que deve ficar no topo, sem ser levemente misturada, do contrário levaríamos dois anos para achá-la.”
    Um bom-dia pra você!


    Tarlei
    23 de julho de 2013

    Querida,
    a sina de um leitor é estar sempre em dias de atraso com suas leituras.
    Adorei o trecho do seu livro, em especial este: “(…) por último, como claras em neve, a passagem, que deve ficar no topo, (…), do contrário levaríamos dois anos para achá-la”.
    Abs,
    Tarlei






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