O viajante imóvel ©
Categoria: Literatura

A viagem que eu mais curto é a que faço diariamente pelo reino das palavras. Mais que viajar até as palavras, de certo modo elas é que viajam até mim. Há um monte delas ancoradas no porto de casa à espera de navegação. O leitor será sempre um viajante imóvel. Um livro aberto são asas poderosas. A bordo delas não há barreira de tempo e espaço. É viagem que se faz a qualquer hora, em qualquer lugar. É abrir o livro e voar. Eu não abro mão desse prazer. Não vou dizer que não gosto de viagens físicas, mas prefiro, de longe, as viagens que têm nas palavras seu ponto de partida. As palavras é que me tiram do lugar. E aqui falo de um lugar ontológico. A cada vez que vou atrás das palavras, volto mais firme para o meu centro, o meu eixo. Saio de mim para buscar vivências e volto a mim mais inteiro, porque mais inteirado do que vai no coração do homem. Essa viagem para dentro do coração do outro já dura mais de trinta anos. As viagens para o que está fora são escassíssimas na minha vida. Conheço quase nada do nosso país. Conheço nada fora do Brasil. E não sinto falta. Com um livro aberto nas mãos, mais que viajar, posso voar. Quem me vê toda manhã sentadinho na minha plataforma de viagem, com jeito de solidamente plantado no mundo real, não tem dimensão de quão fantástica é a viagem que estou curtindo – que é a viagem feita unicamente com a poderosa bússola das palavras.

© Nota de canapé: Livro de Luciano Trigo sobre o viajante imóvel que foi Machado de Assis.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress