La Pietà ©
Categoria: Literatura

A violência está em toda parte e a TV cuida de colocá-la dentro da nossa sala. Há pouco menos de um mês, a notícia de uma criança morta por assaltantes saiu da TV e se aninhou na minha alma, enchendo-a de dor. A ave-bala que atravessou o menino Bryan, levando-lhe a vida, voou até minha sala e deixou em estilhaços meu coração. E toda a dor que eu senti veio de testemunhar a dor da paupérrima mãe boliviana, uma Pietà desvalida e desesperada, de traços indígenas, puro desamparo e desproteção. O assalto foi a um grupo de bolivianos. Tenho uma piedade natural por esse povo. Se os brasileiros pobres são sofridos, mais ainda se são pobres de um país ainda mais pobre. Posso imaginar a vida que levavam na Bolívia para se animarem a tentar a sorte no Brasil. Sofrimento por sofrimento, talvez no Brasil o sofrimento fosse menor. A notícia dava conta de que os assaltantes não ficaram satisfeitos com os R$ 4.500,00 arrancados do grupo. Queriam mais. Os bolivianos assaltados são um grupo de trabalhadores da área de confecção. Trabalham e moram no mesmo local. A jornada diária, segundo a notícia, chega a mais de 14 horas. No meio do grupo, uma criança chora muito durante o assalto, não tendo a mãe conseguido conter o desespero do filho. Ela, cuja expressão de dor não dá pra pôr em palavras, conta que o filho pediu para que não a matassem. E que ofereceu aos bandidos as moedinhas que vinha juntando para a festinha de aniversário dali a dias. Nada disso sensibilizou os bandidos. Resultado: um tiro à queima-roupa na criança. Ai, o desespero da mãe ao contar isso! E contou mais: que o filho, todo entusiasmado com o aniversário, nos últimos dias cuidava de escrever os convitinhos para os amigos – por certo outras crianças da comunidade boliviana que vive em Sampa em iguais condições. Tudo isso interrompido pela mais estúpida, desumana e incompreensível das violências. Não dá pra esquecer o desconsolo da mãe, pobre Pietà tendo de carregar no peito uma dor tão funda, tão irremediável. Ai!

© Nota de canapé: Obra conhecidíssima do artista italiano Michelângelo e conto premiadíssimo da escritora Cecília Prada.


(1)


    Angela Delgado
    10 de julho de 2013

    É por isso que sou a favor da pena de morte para ontem!
    Beijos.






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