Deus-dará ©
Categoria: Literatura

No meio dos nossos caminhos tem sempre uma vida severina expondo-nos seu desamparo. Acontece a toda hora: nos restaurantes, nos supermercados, nos sinais, nas ruas, nos ônibus etc. É tanta gente errando desamparada que acabamos meio anestesiados diante da dor alheia. Há uns dias, no ônibus, fui atingido pelo soco de uma dor dessas irremediáveis. Um homem expunha seu drama, tão igual ao drama de outras tantas vidas ao deus-dará. O drama era compreensível pelo que se via, não pelo que se ouvia. O homem parecia já sem forças para, mais uma vez, falar da sua dor a ouvidos desatentos. Eu não conseguia entender nada do que ele dizia – e não era preciso. Tava na cara. E no pranto. Porque, já sem forças para falar, o homem chorava muito, um choro tão sentido quanto desesperançado. Fiz o que faria qualquer um diante de um homem com sua dor: dei-lhe algum dinheiro. O que lhe dei terá bastado para, no máximo, aliviar-lhe a dor da fome. E a dor da alma, aquela que só se alivia com afeto, acolhimento, esperança? Essa dor continuou intocada. E eu, tocado com tamanha dor, me perguntava: o que eu dei de mim mesmo àquele homem? Também não sei o que mais eu poderia fazer por ele. Mas sei que fiz quase nada. Em mim, a dor do homem doeu como dor intuída. Nele, o homem, a dor doía real, funda, concreta, sentida, visível, vivida até o último esgar. Ai!!

© Nota de canapé: Livro de crônicas da escritora Ana Miranda.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress