Sumidouro ©
Categoria: Literatura

A vida é um voraz sumidouro. Mal caímos dentro da vida e já começamos a gastá-la dentro de nós. E a gastamos com força e fome, como se seu destino fora durar para sempre. Gastando a (e gostando da) minha vida, acabo de entrar na casa dos cinqüenta anos. E já fechei atrás de mim a porta dos trinta anos de trabalho. Nem acredito. Já passei pelo ciclo da infância, da adolescência, da adultescência, da maturidade, e agora me encaminho para o ciclo da terceira infância. Falo em ciclo, mas melhor seria dizer círculo. E são círculos dentro de círculos. O círculo da terceira infância contém todos os outros. Estão todos dentro de mim. Ou eu dentro deles, em especial o da infância. Rompido o último círculo, destino final de todos nós, “adeus composição que um dia se chamou Tarlei Martins Ferreira” (apropriação descarada de um verso de Drummond). Digo isso sem morbidez nenhuma. Mesmo porque estou bem plantado (é o que sinto) no centro da vida, longe, portanto, da borda desse círculo do qual serei expulso – e que a inapelável expulsão venha o mais tarde possível. Não importa quão tarde saiamos desse sumidouro que é a vida, sairemos contra a vontade. É próprio da vida se gastar imprevidente. Ou de nós assim a gastarmos. Pelo menos comigo tem sido assim. Temo que, ao entrar no círculo da terceira infância, fique um pouco avaro no gastar a vida. Será? Que assim não seja!

© Nota de canapé: Livro da poeta Olga Savary.


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    Hilda Lontra
    30 de maio de 2013

    LINDO, ÓTIMO, PRECIOSO (COM SOTAQUE ESPANHOL, E TUDO O QUE TENS DIREITO). POETA, MEU POETA CAMARADA… VÁ VIVER A VIDA, CERTA, COM CERTEZA…


    Rosa Amélia
    30 de maio de 2013

    Amei, Tarlei. Já já também entro na terceira infância… rsrsrsrsr


    Tarlei
    30 de maio de 2013

    Querida Rosa,
    de dentro da terceira infância fico esperando. E quando você chegar, será uma redundância dizer que você, enfim, entrará na flor idade; afinal, você é a Rosa em pessoa.
    Bjs,
    Tarlei


    Tarlei
    30 de maio de 2013

    É isso, profª Hilda, minha mestra soberana: uma vez dentro da vida, “só nos resta viver” — e bem.
    Bjs,
    Tarlei






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