Miopia progressiva ©
Categoria: Literatura

Já usei óculos ali pelos anos 90. Devia ser em conseqüência de uma miopia ligeira, coisa de menos de um grau. Resolvi por mim mesmo suspender o uso dos óculos – e, até onde me lembro, não me fizeram falta nenhuma. Lembro de ter renovado a habilitação sem qualquer dificuldade, confirmando o acerto da minha decisão. Hoje a coisa é bem diferente e vai saber se a decisão de deixar de usar óculos não tem a ver com isso. Já cheguei àquele estágio de ter de afastar os textos até conseguir uma distância confortável para a leitura. Isso vale especialmente para bulas, rótulos de produtos e SMS. A leitura de livros também já exige ajuste do foco – que significa achar o ponto exato de distância entre o texto e o olho. Não sei se é o caso de dizer que estou acometido de uma miopia progressiva. Talvez nem miopia seja, mas vista cansada – e bota cansada nisso. O certo é que tudo indica que vou ter de recorrer aos óculos novamente. Nem pensar em usar ou implantar lentes, modernidade que não me atrai nem um pouco. Com a perda da acuidade visual, e sabendo que na natureza nada se desperdiça, penso no ganho que essa perda trará a algum outro sentido. Aumento da audição? Que venha! E talvez o aumento da audição me ajude a captar melhor o volume do silêncio. Pensando melhor, o mundo anda barulhento demais. E os barulhos do mundo pouco me interessam. Que o ganho vá para o tato. Vou precisar muito dele, agora em outro sentido, para lidar com minha mãe, com a idade, com os achaques da idade, com os atrolhos comuns a todos os viventes – ou sobreviventes. Vê como sou um homem de visão? Tato é tudo de que eu preciso, tanto quanto de um ótimo final de semana. Que venha!

© Nota de canapé: Um conto de Clarice Lispector.


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