Um violeiro toca ©
Categoria: Música

Guardada no bolso de certo sábado, uma surpresa me aguardava. A caminho da parada, ouço som de voz e violão. A dúvida: será da parada que vem o som? A surpresa: sim. O violeiro que tocava era, na verdade, um pedinte. Longe de ser um virtuose do violão, via-se que tocava com alguma técnica, que tinha intimidade com o instrumento. Quando cheguei na parada, ele estava no meio de uma música. Empunhando o violão, o violeiro era pura entrega. Qual não foi meu espanto ao reconhecer a música que ele tocava. Era Pisa na fulô, do João do Vale, artista popular que teve o reconhecimento dos grandes da nossa música. Sabendo disso, apurei mais os ouvidos. E mais me encantei com seu canto, com o enlevo de quem tinha no violão um companheiro. Terminada a música, pediu ajuda à platéia presente na parada. Mas pediu de um jeito que não era aquele pedido desesperado, urgente. Dessem-lhe o que pudessem, se pudessem. Qualquer moeda tava bom. E repetia: “Somos todos irmãos”. Havia no violeiro (negro, meio sujo, alguns dentes faltando) uma aura zen, vinda talvez da profunda comunhão com a música. Feito o pedido, ele partiu para a próxima música. Quando me decidi com quanto o ajudaria, hesitando entre a generosidade e o que pensariam os demais da platéia, ele já tocava outra música. Meu ônibus chegando, ele teve de interromper o número para receber a moeda que lhe dei – e não tive tempo de reconhecer a música da vez. Só sei que vi naquele violeiro a perfeita tradução desses versos de Caetano: “Como é bom poder tocar um instrumento!”. E como é bom estar a caminho do fim de semana!.

© Nota de canapé: Canção de Almir Sáter.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress