De leve ©
Categoria: Música

Eu não me lembro de mim que não estivesse acossado por alguma urgência. As da vez são, pela ordem: o Imposto de Renda, o livro que inventei de editar e a minha festa de alforria. Tudo demanda muita diligência minha – que não tenho. E tem as urgências menores – e constantes: inscrição em algum concurso literário, o texto para a revista Samizdat, o blog etc. E passo ao largo da urgência que venho adiando sine die: a renovação da habilitação. Levo como dá. E cada vez dá menos pra levar certas urgências. Viver leve impõe a arte de guardar no armário umas tantas obrigações que inventaram para nós. Elas que esperem. Atendo-as só quando gritam sua urgência e não é possível abafar esse grito. E administrar esses gritos do cotidiano exige uma competência pra lá de exemplar que, pasme, eu tenho. Os que têm o horrível defeito de serem práticos devem pensar que não fazer algo é coisa muito simples. Não é. Não fazer também dá trabalho: o trabalho de me convencer que algo pode esperar. Nem se pense que sou facilmente convencível. Não se trata de ignorar as urgências do caminho. Trata-se de acomodá-las de um jeito tal que elas não fiquem visíveis. E se não estão visíveis, é como se não existissem. Não é fácil esconder elefantes numa valise. Haja perícia. Na minha avaliação, tenho conseguido. Até quando? Até quando Deus quiser. E não consigo evitar a tentação de pensar que, nesse caso, Deus sou eu.

© Nota de canapé: John e Paul, em versão de Gil e Rita e gravação de Lulu.


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