Exercícios ©
Categoria: Literatura

Bendito dia em que resolvi mandar um “psiu” pra uma querida amiga. Bendito dia em que a amiga pôs em dúvida a continuidade das minhas aparições por escrito. Daquele “psiu” e da incredulidade da amiga nasceu essa escrita desenfreada, desembestada, repetitiva, provocativa, imprevisível e interminável. Meus exercícios de escrita vêm de longe e sempre foram marcados pela intermitência. Até onde a memória alcança, tudo começou com um discurso que escrevi para um primo que participava de um daqueles grêmios escolares. Penso que tinha uns treze anos. Nem dicionário eu tinha e já gostava de usar palavras diferentes. Consigo me lembrar de ter usado nesse discurso a palavra “repertório” cujo significado eu provavelmente não sabia. Pouco depois teve um concurso de redação na escola e eu tirei o primeiro lugar. Uma alegria sem tamanho para os meus florescentes quinze anos. Teve até prêmio em dinheiro: um cheque de um comerciante da cidade chamado Adilon Custódio Vêncio. Estará vivo ainda? Depois foi a vez de ter minha redação lida para toda a turma por um professor do cursinho Anglo, o José Luiz Amzalak. Adolescente na flor dos dezessete anos, fiquei a um tempo exultante e receoso. Exultante pelo reconhecimento e receoso de ele desgostar de alguma coisa, já que, tendo-se entusiasmado apenas com as primeiras linhas, resolveu ler a redação em voz alta para a turma sem antes lê-la em silêncio. E pensar que no tempo dessas façanhas tão miúdas eu nem era leitor. Depois foi o tempo das cartas para vários amigos postais que cultivei, período que se encerrou triunfalmente (que me seja perdoada a imodéstia!) na correspondência com a escritora Nélida Piñon. Depois disso, hibernei por longo tempo, até que chegou o bendito dia do “psiu” com que comecei este post. De lá pra cá, nada preciso dizer. Basta dizer que, desde então, meus exercícios de escrita vêm tendo uma constância de que eu jamais suspeitei ser capaz. Apesar do aparente protagonismo que este post me confere, eu sou o mais humilde dos escreventes. Qualquer elogio me enche de espanto e o boto sempre na conta da generosidade alheia, nunca de um eventual merecimento meu. Também não preciso dizer o quanto me enche de gratidão a receptividade que alguns amigos dispensam aos meus exercícios sem fim. Muito obrigado é pouco, quase nada.

© Nota de canapé: Livro da grande Hilda Hilst.


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