Dois perdidos numa noite suja ©
Categoria: Teatro

Começo com uma imprecisão já no título. O que quero contar envolve, sim, dois perdidos, sujos de vida severina, mas não era noite quando os vi. Era manhã, embora ainda com uns restos de noite, graças ao cedo da hora (pouco antes das 7), ao tempo fechado e ao horário de verão. Eu estava a caminho do trabalho a bordo da minha libusine. Numa parada, um casal me chama a atenção. Dou a eles uns vinte anos. Tudo aconteceu muito rápido. Só deu tempo de clicar a cena e cravar na alma mais um espinho. “Vamos pedir piedade. Senhor, piedade!”. Diante do que vi, só invocando o tristíssimo Blues da piedade, do Cazuza. Porque eu vou falar de dois miseráveis vagando pelo mundo derrotados, feito essas sementes mal plantadas que já nascem com cara de abortadas. Très triste! Assim os vi: meio sujos, mal dormidos, vida nenhuma pela frente e um desamparo absoluto. A moça estava sentada num murinho. O moço estava agachado aos pés dela, de frente pra ela. Deu pra ver que a moça chorava. Era um choro discreto, mas era choro. A mim me pareceu que o moço tentava consolá-la. Ah, vida cruel! Que consolo pode alguém oferecer estando sob o mesmo desconsolo? Aqui lembro uns versos do Djavan: “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar?”. Isso tornou o gesto do moço ainda mais comovente. E as lágrimas da moça doeram muito em mim. A dor dos dois moços atravessou o meu dia. E senti toda a impotência e toda a angústia de ter “apenas duas mãos e o sentimento do mundo” (Drummond). “Senhor, piedade!”.

© Nota de canapé: Peça do dramaturgo Plínio Marcos.


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    Angela Delgado
    18 de março de 2013

    “Libusine”… Ótima essa. Cada vez te admiro mais! Não se esqueça, porém, de que não podemos consertar este mundo-cão. Cada um fazendo a sua parte, ou sendo feliz, porque o bom humor e o sorriso contagiam, já é uma grande coisa.
    Um bom final de dia!


    Tarlei
    18 de março de 2013

    Querida Angela,
    talvez seja esse o nosso destino: concertar com um pouquinho de beleza o mundo tão feio que às vezes se nos apresenta.
    Abs,
    Tarlei






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