O rumor da língua ©
Categoria: Literatura

Porque gosto de escrever, alguns amigos deduzem que sou um expert em gramática. Não é o caso. Reivindico para mim uma certa autonomia no manejo da língua, o que me permite, não poucas vezes, passar ao largo da gramática prescritiva. Repare que estou falando em gramática prescritiva, aquela do certo e do errado. Porque, em verdade, a gramática é a própria língua. Nada na língua é por acaso (aliás, título de um livro do lingüista Marcos Bagno) e os fenômenos de linguagem independem da chancela dos guardiães da gramática. Não existe fala nem escrita agramaticais. A questão toda é de que gramática se está falando. E quando se fala em gramática, a associação imediata é com a gramática normativa. Eu me inclino mais para a gramática de usos da língua, esta que circula livremente entre os falantes. É claro que o registro escrito tende a ser mais formal. Mas questões como colocação pronominal, por exemplo, considero irrelevantes. Mesma coisa para certas regras de regência e concordância. Nesses casos, deixo falar mais alto a minha intuição lingüística. Já fui mais aferrado às pétreas regras gramaticais. Associava domínio gramatical a domínio lingüístico. O crescente domínio lingüístico, advindo do longo convívio com a língua escrita, foi pondo em segundo plano o engessado universo da gramática prescritiva. Eu gosto de passear pelos rios interiores da língua. E para o passeio ser completo, profundo, às vezes é preciso ignorar os comandos da gramática. É o que faço. Sinto da parte dos amigos um certo desapontamento quando digo que tenho dúvidas sobre determinada questão de linguagem. É como se a admissão da dúvida fizesse de mim um escritor de segunda categoria. E sou, mas não por causa da falta de domínio da gramática normativa. A essa altura, só estou interessado no rumor da língua – da língua viva que vive nos becos, nas bocas, em contraponto à língua fossilizada de certos compêndios gramaticais.

© Nota de canapé: Livro do semiólogo Roland Barthes.


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    Angela Delgado
    10 de março de 2013

    Apesar de temer becos, gostei MUITO desse seu texto!
    Um bom domingo pra você.


    Tarlei
    10 de março de 2013

    Obrigado, querida Angela! Desejo um domingo de muito calor — atmosférico (a natureza já providenciou) e humano (esse é por nossa conta).
    Bjs,
    Tarlei






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