Os estatutos do homem ©
Categoria: Literatura

“Fica decretado que o homem / não precisará nunca mais / duvidar do homem. / Que o homem confiará no homem / como a palmeira confia no vento” (Thiago de Mello). Num tempo em que o homem desconfia da própria sombra, que falta faz uma demonstração de confiança assim tão irrestrita!! É urgente que a confiança recíproca volte a ser letra viva nos estatutos do homem. Senti esse tipo de confiança após a leitura de um singelo cartaz: “Por favor, não mexa nas tábuas. É da banca de lanche da Dona Cida”. As tábuas estavam guardadas numa parada de ônibus. Era sábado e a banca de lanche só funciona em dias úteis. Bastou ler o cartaz pra eu ficar enternecido com a irrestrita prova de confiança que a Dona Cida mostrava ter no semelhante. A banca de lanche fica na parada oposta àquela em que tomo ônibus para o trabalho. Sábado e domingo tomo ônibus na parada da banca. E foi porque a banca não funciona nesses dias que as tábuas estavam guardadas. Não me custaria, uma manhã dessas, atravessar a avenida e conhecer a Dona Cida. Quando chego na parada, nem 7 da manhã ainda, vejo que a banca já está funcionando. De onde virá a Dona Cida? De onde seja, é certo que vem de longe. A banca da Dona Cida, dá pra ver de longe, serve café da manhã. E para o café estar pronto tão cedo, ainda mais vindo ela de longe, a que horas acordará? Fica decretado que eu preciso me informar de tudo isso logo, logo. Antes precisaria decretar a revogação da minha timidez. Tudo o que apanho da vida alheia é de oitiva. Não sou de perguntar nada. Prefiro sempre a leitura silenciosa. Bom seria se, numa visita distraída à banca, a Dona Cida me desse a ler todas essas informações!

© Nota de canapé: Poema lindíssimo do amazonense Thiago de Mello.


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    Angela Delgado
    6 de março de 2013

    Seria tão bom, Tarlei, se esse decreto pudesse ser obedecido! Valeu a intenção, mas a realidade, infelizmente, é bem outra. Eu, por exemplo, sempre que posso, prefiro ficar em casa. Não chego a ter pânico, mas procuro não facilitar sequestros relâmpagos.
    Mas, acho que vai te fazer bem se você se soltar um pouco.
    Um bom-dia!


    Tarlei
    6 de março de 2013

    Querida Angela,
    sabemos todos que “viver é muito perigoso” (Riobaldo/Guimarães Rosa). Cada vez mais. E é justamente porque a realidade está cada vez mais distante do decreto poético que devemos persegui-lo.
    Abs,
    Tarlei






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