Poltrona 27 ©
Categoria: Literatura

Foi numa viagem Brasília/Uberlândia. Instalado na poltrona 27, assisti embevecido a algumas cenas que rolaram nas poltronas 29, 30 e 34. Conto ao raro leitor.

Vem caminhando pelo corredor, cheia de bagagem de mão, uma mulher de uns trinta e poucos anos. O que primeiro ouço é ela dizendo: “Mamãe, cada coisa de uma vez” – e a filha não disfarça uma certa impaciência no tom de voz. Conhecendo bem a mãe que tenho, solidarizo-me de imediato com a filha. Até esse momento, “mamãe” não estava ao alcance do meu campo de visão. Assim que a filha começa a ajeitar a bagagem de mão, eis que surge “mamãe”, cabelinho pintado de loiro, toda alinhada… Vê-se logo que a única preocupação de “mamãe” é se acomodar na poltrona 34. A filha que cuide de tudo o mais. “Mamãe” põe uma sacola de mão aos pés da poltrona do lado. Quando a dona da poltrona chega, pensa que “mamãe” se mexe? Continua quietinha, até que a dona pergunta se aquela sacola é dela. “Mamãe” diz que sim – e só. Nem sinal de que pretende tirar a sacola do lugar – é como se a sacola fosse problema da filha, que tinha descido para cuidar de outras providências. Aí a dona da poltrona pergunta se pode tirar a sacola pra ela se acomodar. “Mamãe” consente. Em seguida “mamãe” conversa qualquer coisa com a dona da poltrona com o único propósito – é o que penso – de poder dizer que tem problema de osteoporose. E, com isso, justificar por que não tinha se mexido do lugar para tirar a sacola. A filha, já de volta, acomoda o que falta, o genro ajuda no ponto exato de reclinação da poltrona da sogra (o genro não viaja), a filha se acomoda na poltrona 30 e estamos prontos para seguir viagem. Daí a pouco a filha começa uma conversa com a senhora da poltrona 29. Na verdade, quem mais conversa é a senhora. O assunto entre as duas segue ininterrupto até a parada de Ponte Alta para um xixi, um lanche etc. Na retomada da viagem, o ônibus já dando ré, reparo que “mamãe” e a filha não estão nos lugares. Prontamente a senhora informa: “Ela tá com a mãe no banheiro. A mãe não desce do ônibus”. Vale dizer que mãe e filha estão a caminho de Campo Grande, no Mato Grosso. De lá, seguem viagem para não sei onde. Ah, pobre filha! O melhor de tudo aconteceu na segunda parte da viagem, logo que saímos de Ponte Alta, pouco mais de onze da noite. A senhora volta pro ônibus com um marmitex e o abre em plena viagem, servindo-se com gosto, não se importando de o ônibus estar às escuras. De repente percebo a filha se servindo do marmitex da senhora. E não era um servir-se só para não fazer desfeita à senhora. A filha se serve sem constrangimento e, se não me engano, devora toda a porção de batatas do marmitex. Achei a cena linda! Essa coisa que o brasileiro tem de estabelecer uma intimidade de irmãos em apenas quatro horas de viagem é de espantar qualquer um. Uma coisa é saber que o brasileiro tem essa capacidade. Outra coisa é ver tudo acontecendo na sua frente. Ah, juro que tive vontade de aplaudir a cena.

© Nota de canapé: Livro do mineiro Carlos Herculano Lopes.


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