Lugar comum ©
Categoria: Música

Reconheço que não sou nem um pouco original no que escrevo, mas tenho horror ao lugar-comum. Não cheguei ao paroxismo de sofrer uma crise por isso, tal qual a sofrida pela escritora Nélida Piñon. Ela conta que, ao deparar com a expressão “ladeira íngreme” em um de seus textos, decidiu que não mais cederia aos automatismos verbais e durante dois anos se dedicou aos mais indomados exercícios de criatividade. Como disse, não cheguei a tanto, mas, a meu modo, venho tentando fugir dos lugares-comuns mais óbvios. Em compensação, invento os meus próprios lugares-comuns. Já tenho um par deles. Se acaso eu me dispusesse a uma colheita, talvez ficasse espantado com a quantidade. Porque a memória não ajuda, e porque é pequeno o ânimo para navegar na avalanche de escritos, menciono apenas o top dos meus lugares-comuns: feições cândidas. A propósito, certa vez fiz uma colheita das “feições cândidas” espalhadas em inúmeros canteirinhos. Naquela altura contei dezenove. Hoje quantas seriam? Meu desejo era não deixar as “feições cândidas” desacompanhadas no pódio do lugar-comum. No entanto, não me vem à memória outros lugares-comuns para fazer-lhes companhia. Embora não me ocorram, estou certo de que eles pululam no corpo dos meus escritos. Um dia, talvez, quem sabe, eu faça um inventário dos lugares-comuns que semeei no meu quintal de nonadas (acho que “quintal de nonadas” é um deles). E resta provado que é impossível fugir ao lugar-comum. A tentativa de ser original a qualquer custo pode, ela mesma, cair no lugar-comum: o lugar-comum de querer ser original – e inventar seus próprios lugares-comuns. Mon Dieu!

© Nota de canapé: Parceria de João Donato (música) e Gilberto Gil (letra).


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