Vida ©
Categoria: Música

No fim de semana fui exercer o meu incansável ofício de celebrar a vida. No caso, as oito décadas de vida de um tio de coração – casado com uma irmã de minha mãe, partilha do meu afeto tanto quanto a tia. Antes preciso falar da viagem a Goiás, saindo de Brasília às oito da noite de sexta. Programei ir até Itumbiara, passar o resto da noite num hotelzinho já reservado e seguir na manhã de sábado para Buriti. Na parada em Anápolis, duas primas (netas do aniversariante) embarcam no mesmo ônibus. Daí fico sabendo que elas vão até Morrinhos, onde o pai (outro primo) irá buscá-las. Ofereceram-me carona e eu aceitei. Cheguei a Buriti pouco antes das três da manhã. O meu desejo era ir para um hotel. O meu receio era que o primo ficasse melindrado com a recusa da hospitalidade que é marca da nossa família. Acho que me saí bem, porque não houve resistência. Hospedei-me no Flip Palace Hotel. É um hotelzinho bastante confortável, mas nada que justifique o Palace no nome. Ah, como eu ansiava pela hora de estar num hotel. Aí foi o tempo de tomar banho e cuidar de recompor as energias. Para isto, além do sono reparador, contei com o reforço de um farto café da manhã. Tomado o café, chamei o táxi e fui para a casa do tio aniversariante. Daí a pouco, com a chegada dos familiares de Uberlândia, minha mãe inclusive, rumamos para o local da festa – e da festa nada preciso dizer, a não ser que foi bonita. Redundância dizer que bebemos, que comemos, que dançamos – muito. Havia fartura de comida e bebida, mas sobretudo havia fartura de alegria. Rodeado de irmãos, filhos, noras, genros, netos, sobrinhos e amigos, o tio era todo alegria. “Dançou e gargalhou como se ouvisse música”. Na hora dos parabéns, foi bonito ver a alegria emocionada dele – e olha que, escolado nas durezas da vida, só uma emoção mais maior de grande para fazê-lo transbordar. E as lágrimas brotaram discretas porém explícitas. O bom é que eram lágrimas de alegria. Lindo! E houve o momento das lágrimas de um dos genros do tio, vítima de AVC (mal consegue falar e só se movimenta em cadeira de rodas). Li-as como sendo lágrimas de tristeza. A vida é assim: vem com tudo dentro – tudo junto e misturado. Apesar dessa nota triste, o tom da festa foi a alegria. Gostei de tudo. Onde quer que haja o chão da simplicidade, lá estou eu, totalmente em casa. Aliás, quer luxo maior do que o da simplicidade? A minha família é simplesmente um luxo! Como já disse, é a minha raça de heróis, e o tio está entre eles. E desses heróis me vêm valiosas lições de vida. Tomara que eu consiga honrar esse legado!

© Nota de canapé: Canção do Chico Buarque.


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    Paola
    14 de janeiro de 2013

    Linda mensagem, Tarlei. Descreveu muito bem a amável tarde que passamos todos juntos com nossa família querida! Abraços!


    Tarlei
    14 de janeiro de 2013

    Obrigado, Paola! Foi muito bom estarmos todos juntos. Como diz o nosso primo Magno, a felicidade que conta é aquela que é compartilhada. Foi o que fizemos. Abraços!


    kelly cristina
    15 de janeiro de 2013

    Lindas palavras! Descreveu tão intensamente que me senti novamente na festa. Dia muito agradável. Estou feliz por ter participado desse momento.


    Tarlei
    15 de janeiro de 2013

    Obrigado, Kelly! Acho que todo mundo percebeu: também fiquei muito feliz de ter participado. Dancei tanto e acabei não dançando com você. Fica para a próxima festa.
    Abs,
    Tarlei


    Monique
    16 de janeiro de 2013

    Admiro a sensibilidade de captar as emoções e, ainda mais, ser capaz de transformá-las em palavras que chegam à gente como se fossem um afago. Sinto muito por não ser capaz de reviver as emoções, mas ao menos pude vivê-las através do seu olhar.
    E devo acrescentar que, apesar da distância de gerações, assim como a grande diferença de pensamento e comportamento, sinto a presença do meu avô cotidianamente: em uma expressão facial, corporal ou de comportamento de uma parte dele espetacular que é minha mãe.


    Tarlei
    16 de janeiro de 2013

    Monique,
    já escrevi em algum lugar que meus olhos são duas polaróides. Estou sempre de prontidão para captar o que se passa ao redor. E depois procuro transpor o que capto para a película das palavras.
    Obrigado pelo belíssimo comentário!
    Abs,
    Tarlei






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