Beleléu ©
Categoria: Música

Vivo dizendo que não tenho reputação nenhuma (e não tenho mesmo), o que não me impediu de mandar pro beleléu a nenhuma reputação que tenho. Assim: sempre ligo para uma amiga avisando que é hora de sairmos para o almoço. Se eu não ligo, é bem capaz de ela nem sair para almoçar. A ligação se resume a: “Estou descendo. Beijo!”. Tão no automático está o beijo que, tendo certo dia outro colega atendido o telefone na ausência da amiga, despedi-me dele com o “Beijo!” de praxe. Considero que o ato falho é bastante para derrubar até reputações inexistentes, como é o caso da minha. Desculpei-me com o colega – desculpas meramente protocolares diante de tamanho passo em falso. A sorte é que é um colega que conheço. Mesmo assim, é o tipo de acontecimento para o qual não há conserto e que deve ficar protegido por um pacto de silêncio – pacto que, ao divulgá-lo, estou quebrando. E desconfio que o colega também o fará. Não tem jeito: tudo o que pede mais segredo, acaba mais alardeado. Eu compreendo. Quando me pedem segredo de algo – depois do segredo contado, claro –, tenho essa resposta pronta: “Se nem você conseguiu guardá-lo, tem coragem de pedir isso de mim?” E assim fico autorizado a espalhar o segredo sem culpa nenhuma. Claro que estou brincando. Mas de fato é um desaforo que nos peçam segredo de algo que o segredador não conseguiu guardar para si. A escritora Nélida Piñon tem uma frase que diz assim: “O segredo perde suas propriedades quando conhece a voz humana”. Pra terminar, uma quadrinha lapidar do Quintana sobre o assunto: “Não te abras com teu amigo / Que ele um outro amigo tem. / E o amigo do teu amigo / Possui amigos também.”

© Nota de canapé: Canção do Itamar Assumpção.


(2)


    Angela Delgado
    26 de janeiro de 2013

    Se avexe não! No mundo de hoje, isso não é motivo para se preocupar. Era só dizer: Foi mal! Pensei que era “Fulana”…
    Se fosse um selinho… aí sim a coisa mudava de figura.
    Beijo (sem ser no automático).


    Tarlei
    26 de janeiro de 2013

    E veja a contradição: começo logo dizendo que não tenho reputação nenhuma e me revelo avexado por um lapso banal. Acolho bem minhas contradições. Subscrevo o que disse Nelson Rodrigues: “A coerência é, no mínimo, suspeita”. Rsrs…
    Bjs (nada automáticos).






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