Desenho ©
Categoria: Literatura

Tanto interesse em inventariar o desfile do miúdo tornou meu olho treinado para captar o que a vida desenha no chão breve do cotidiano. Fui com minha mãe levar uma panela de pressão para reparo. O prestador de serviço, um senhor já bem avançado em anos, era conhecido de minha mãe. O que se pretendia era apenas deixar a panela. O senhor disse que podia fazer o reparo na hora. Contrariado, desci do carro e entrei para a “oficina” até que se concluísse o conserto. O que primeiro observei foi o tremor de mãos do senhor, sinal evidente de que sofre de mal de Parkinson. Além disso, parece acometido de surdez. Na “oficina” anexa à casa, muitas ferramentas e algumas gaiolas com coelhos – numa delas, uma coelha e seus seis coelhinhos recém-paridos. O senhor não me pareceu desamparado. Mora numa casa boa e talvez a “oficina” seja só um jeito de se manter em atividade. O aguilhão que me fez acordar para o possível desamparo daquele senhor me atingiu quando minha mãe e eu já estávamos quase de saída. Minha mãe perguntou pela esposa dele. Firme mas sem esconder o desconsolo, ele respondeu: foi embora. Ele disse que a esposa tinha sido acometida de cinco enfermidades. Vendo que não havia ninguém mais na casa, eu quis saber se ele tinha ficado só. Não. Morava com um filho. Eu me comovo muito quando vejo o desenho de uma vida se encaminhando para o fim. Foi o que vi naquele senhor. Se o findar do desenho é inevitável, vale amparar-se nesses belíssimos versos da Marina Colasanti: “A morte não é feia / Nem bonita. / A morte é onde a vida / põe um ponto. / Um ponto de partida”.

© Nota de canapé: Um lindo poema da Cecília Meireles.


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