Memórias do esquecimento ©
Categoria: Literatura

Está certíssimo o Mia Couto quando diz: “Falar de memórias é um assunto cheio de esquecimento”. Um dos fundamentos da memória é o esquecimento. Se não houvesse esquecimento, não haveria memória, por paradoxal que possa parecer. O que define a memória é justamente a atividade misteriosa de escolher o que esquecer. Os meus esquecimentos (os de que me lembro, claro) estão cada vez mais numerosos e podem colocar em risco a reputação que insisto em dizer que não tenho. Os esquecimentos mais memoráveis envolvem, não por acaso, duas queridas escritoras: Nélida Piñon e Stella Maris Rezende. O caso da Nélida teve a ver com a epígrafe de um dos seus livros. Ela ia dar uma palestra no Instituto Cervantes e calhou de entabularmos um papo muito agradável. A certa altura, pleno de certeza, relembro a epígrafe e digo que está no livro O calor das coisas. Nélida, gentil, não me desautorizou, mas o fato é que a epígrafe está no livro A casa da paixão, edição da Nova Fronteira. Com a querida Stella Maris, mineirinha de Dores do Indaiá, o que aconteceu foi ter eu afirmado, sem sombra de hesitação, que a dissertação de mestrado dela era sobre Adélia Prado, “memória” que eu trazia de alguma palestra. Com toda delicadeza, ela me corrigiu dizendo ter sido Graciliano Ramos o tema de sua dissertação. Mais recentemente, conversando com um primo sobre determinado ator argentino, e com a desenvoltura que só um desmemoriado consegue, e a propósito de um filme que esteve em cartaz na cidade com esse ator no elenco, cometi um festival de erros. A desmemória chegou a um nível tal que nem me ocorre a possibilidade de estar equivocado. Vai daí eu disse para o primo: “Assistiu Elefante selvagem? Já vi um filme ótimo com o ator desse filme, o Rubem Darío. O filme se chama Um conto chinês”. O filme que o primo assistiu é Elefante branco. O ator é Ricardo Darín. Devo dizer que o primo me corrigiu levemente constrangido, tal a certeza com que falei. Depois disso, acho prudente fazer a linha dos que não se lembram de nada e buscam o auxílio do interlocutor. Algo do tipo: “Como é mesmo o nome do filme que você queria assistir? Como é mesmo o nome daquele ator argentino que está no filme?”. Essa simples precaução teria evitado mais um buraco na minha reputação. Só não posso me esquecer de lembrar disso quando estiver conversando com alguém.

© Nota de canapé: Livro do jornalista Flávio Tavares.


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    Angela Delgado
    20 de janeiro de 2013

    Meu querido, esses lapsos indicam simplesmente que a idade avança… Ainda bem que terei companhia nesse caminho. E quando você esquecer o nome da pessoa à sua frente, pode fazer o que meu pai fazia:
    - Como é o seu nome todo mesmo?

    Bom domingo!


    Tarlei
    20 de janeiro de 2013

    Minha querida,
    como está dito num divertido vídeo que o teatro da Caixa Cultural exibe antes de cada espetáculo, “pra tudo tem uma saída”. Não me desespero. E ainda me divirto. A dica do seu pai é perfeita e já está devidamente catalogada no meu caderninho de como perder a memória sem perder a classe… rsrs…

    Bom domingo também!!

    Bjs,
    Tarlei


    Edna Freitass
    26 de janeiro de 2013

    amigo tarlei, tudo bem que vc se queixe de sua memória… mas convenhamos que esta postagem é prova de que vc tem boa memória. rsrs abraços literários procê. inté.


    Tarlei
    26 de janeiro de 2013

    Amiga Edna,
    o problema não é a memória que tenho, ainda minha aliada, mas a memória que não terei, tão veloz vem sendo a trajetória dos esquecimentos triunfais. Rsrs… Não há de ser nada.
    Abs,
    Tarlei






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