Raça de heróis ©
Categoria: Música

(PSiu: Minha homenagem ao Dia da Família)

Venho de uma raça de heróis. É um heroísmo anônimo, mas nem por isso menos admirável. Eu me orgulho de pertencer a essa estirpe brava, guerreira, de palavra, que não se entrega diante das adversidades. Quisera eu ter a força desses meus heróis a quem hoje reverencio.

Minha mãe, caçula dos irmãos, recém-completou 70 anos. Pagou o preço de não se sujeitar a um casamento insustentável. Separada do meu pai, foi à luta – e que luta – para cuidar de si e dos três filhos pequenos. Trabalhou em casas de família anos a fio.

Tia Joana (nove filhos) é a Sherazade da família, tanto ela gosta de conversar, de inventariar o cotidiano. Tem sofrido com a seqüela de um atropelamento ocorrido há mais de vinte anos e que lhe comprometeu todo um pulmão e metade do outro. No último ano a lesão pulmonar se agravou bastante. Foram meses de UTI. Vive, agora, em regime de home care e não prescinde do uso de aparelho para respirar. Mantém a fé na vida a despeito de tudo.

Tia Dalva (sete filhos), a mais doce das criaturas, é do tipo que não se queixa de nada. Uma dor é sempre uma dor a caminho da melhora. O mal maior é uma renitente depressão, conseqüência, talvez, de uma doçura que prefere abafar as próprias contrariedades. Convive, sem maiores queixas, com outros achaques da idade.

Tio Manoel (sete filhos) adorava crianças. Tinha com elas (e elas com ele) um xodó especial. Sempre curioso do que se passava com os seus, gostava de saber de tudo. Diagnosticado com um câncer que o levaria em um mês, doeu muito saber que ele, como que pressentindo a partida, fazia questão de abraçar forte todos de quem gostava.

Tio Chico (quatro filhos) casou-se tarde. Era de natureza alegre, mas a solteirice prolongada o levou (acho) a cultivar certas rabugens, todas elas desfeitas com o casamento. Trabalhador da terra como os outros dois irmãos, viveu sempre de empreitas junto aos fazendeiros da região.

Tia Dejena é apenas memória de relatos familiares. Morreu no parto da única filha. Não a conheci, mas é como se. Sendo todos da mesma estirpe, conheceu um, conheceu todos.

Tio Eurípedes (quatro filhos) era ao mesmo tempo doce e casmurro. Homem de pouco falar, tinha um enorme coração. Jamais me esquecerei que a atenção desse tio esteve por trás de momentos particularmente felizes da minha infância e que consistiam em passar as férias escolares na roça, em companhia dele, da tia e dos primos.

Tia Divina (quatro filhos), tão pouco divina na sua frágil humanidade, sofria de cismas e fobias que não entendíamos. Medo de gato, que depois eu vim a saber tratar-se da elurofobia, era o mais estranho. Outro medo era o de dormir sozinha. Durante anos ela e os filhos dormiram na nossa casa.

Tia Eterna (oito filhos) é a única dos irmãos que viveu, desde que me lembro, fora de Buriti Alegre, o burgo primeiro de todo o clã. Lembro uma única – e memorável – visita dela à família. Nessa brevíssima visita, deixou em todos o rastro de uma alegria solar, da língua solta, do jeito de falar sem meias palavras. Vítima de um derrame que a mantém há anos numa cadeira de rodas, nada perdeu, segundo contam, de sua essência.

Madrinha Maria, a mais velha dos irmãos, encantou-se no último dia 9 de outubro. Não teve filhos de sangue: o tempo entre o casamento e a viuvez não o permitiu. Uma sobrinha, filha da irmã que morreu no parto, foi a filha de coração. Carregava o dom da maternidade e, por isso, foi um pouco mãe de todos os irmãos. Órfã de mãe na adolescência, era a única que enfrentava os destemperos do pai, destemperos causados pela bebida. O maior exemplo de força que conheci – a força dos que sabem que não há outra saída senão tomar a vida nas mãos.

Essa é a minha raça de heróis – tão obscura quanto amada!.

© Nota de canapé: Canção do Guilherme Arantes.


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