O homem velho ©
Categoria: Música

No caminho para o restaurante Green’s, local de almoço quase todos os dias, há sempre alguns pedintes, uns já conhecidos. Não era o caso do senhor que nos abordou, a mim e a uma amiga, na chegada ao restaurante em certo dia. Por mim teria ido em frente, mas a amiga resolveu parar – e que bom que ela resolveu parar. O senhor era, na verdade, um velhinho bem velhinho, bem franzino, bem baixinho – e bem triste. Contou para a amiga que tinha trazido a esposa para um hospital e foi preciso amputar uma perna. O médico pediu uns documentos, umas cópias, ele teve de providenciar e o resultado foi ficar sem dinheiro para a volta à cidade de onde tinha vindo. Nessa altura ele já chorava muito de puro desamparo, imagino que por ver-se na condição humilhante de ter de pedir ajuda. Falava tão baixinho o senhor! Ao vê-lo chorando, não me segurei, claro. Disse-nos que já tinha conseguido R$ 23,00. A amiga deu de início R$ 10,00 e eu R$ 10,00. Eu não tinha mais nada – sempre ando com quase nada de dinheiro. Condoída com a história, a amiga deu mais R$ 50,00. Ele agradeceu muito, ainda chorando muito. Foi uma boa ajuda, mas penso que fizemos pouco. Devíamos ter perguntado se ele queria almoçar. Não nos custava nada levá-lo até o restaurante conosco. Tão desamparado ele parecia que eu tive dúvidas se ele conseguiria ir até à rodoviária. Quando lhe dei os R$ 10,00, ele chorava tanto que nem enxergou, a princípio, a nota que eu lhe estendia. Aliás, ele parecia não enxergar bem. E eu fiquei preocupado. Podiam facilmente roubá-lo. Enquanto entrávamos no restaurante, eu olhei para trás algumas vezes. Ainda o vi sentando-se num tamborete de uma barraca de conserto de calçados. Depois o vi indo embora não sei para onde, com o andar penso, os passos vagarosos – e decerto uma dor imensa no coração. Quando voltamos do almoço, não o vimos mais. E eu queria tanto tê-lo ajudado mais! E penso que a amiga também. Podíamos tanto ter saído um pouquinho mais de nós mesmos! Ainda assim penso que ele terá levado de nós uma boa memória. Assim seja!

© Nota de canapé: Uma canção linda do Caetano.


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    Angela Delgado
    4 de dezembro de 2012

    Li ontem no Jornal da Comunidade que moradores de cidades do entorno e de outros estados aparecem nessa época do ano visando à solidariedade das pessoas e que na 903 sul há o Centro POP Brasília, oferecendo uma série de serviços voltados para as pessoas que utilizam as ruas como espaço de moradia. Acho que indicar esse endereço já pode ser de grande ajuda.


    Tarlei
    4 de dezembro de 2012

    Sem dúvida, Angela, é uma grande ajuda indicar o espaço às pessoas nesse tipo de situação. A situação do senhor que nos abordou, no entanto, era nitidamente um caso de alguém colhido por um triste infortúnio.
    Abs,
    Tarlei






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