Lado a lado ©
Categoria: Televisão

Na minha condição de apanhador de desperdícios, não perco ocasião de ler os textos que a vida não cessa de esbanjar. O texto da vez veio de pai e filho. Surpreendi-os certa manhã, eu a caminho da padaria, eles caminhando na praça. Lendo de longe, me pareceu que o pai obrigava o filho a caminhar. Fiquei intrigado. Em outra manhã, eu também caminhando pela praça, pude ler tudo de perto. E o que li por último contrariou in totum a primeira leitura. De perto o que se lia era que o filho tinha problemas motores. E que a caminhada era um exercício necessário a que o pai se dedicava com todo zelo. O filho, meio cambaleando, mal caminhava. Nem por isso o pai deixava de animá-lo. E assim iam, lado a lado. Eu dava voltas e voltas na praça, enquanto pai e filho pareciam permanecer numa mesma e única volta. Ao passar por pai e filho, eu colhia pedaços de conversa: “Vamos, filhão! É a última volta!”. De tudo o que o pai fazia, o mais bonito de ver era ele, o pai, simulando uma corrida (sem sair do lugar) para animar o filho. E eu passando por eles com a aparente indiferença de quem não quer se envolver, mas totalmente envolvido. Porque eu gosto mesmo é de ler em silêncio. Está tudo escrito. É só ler com atenção.

© Nota de canapé: Telenovela em exibição no horário das 18h.


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    Angela Delgado
    21 de novembro de 2012

    Uma sugestão: imprima o que escreveu e o entregue ao pai dedicado.


    Tarlei
    21 de novembro de 2012

    A sugestão é boa, mas tenho receio de parecer invasivo. Eu precisaria ler um pouco mais esse pai, estabelecer com ele um elo para além do meu olhar solidário. Aí, sim, me sentiria à vontade para compartilhar o escrito.
    Abs,
    Tarlei


    Angela Delgado
    22 de novembro de 2012

    Às vezes nos retraímos e as oportunidades não voltam mais…


    Tarlei
    22 de novembro de 2012

    Querida Angela,
    você tem toda razão. No entanto, é da minha natureza ser mais pra retraído do que pra atirado. E por ser assim, freqüentemente me vejo atingido por esses lindos versos da grande Cecília Meireles: “Saudoso do que não faço / do que faço, arrependido”.
    Bjs,
    Tarlei


    katia simoes fletcher
    23 de novembro de 2012

    Chorei…estas pessoas especiais mostram o quanto somos pequenos…


    Tarlei
    23 de novembro de 2012

    Pois é, Kátia! Foi mais um desses textos lindos que a vida pôs ao alcance do meu olhar amoroso.
    Bj,
    Tarlei






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