A magia dos gestos poéticos ©
Categoria: Literatura

Se a delicadeza, que devia ser pauta obrigatória no convívio humano, passa a chamar a atenção, algo vai mal, mas vai mal demais. Certa manhã, uma delicadeza passou veloz pela minha retina e quase que não a percebo. O alvo da delicadeza foi um moço que encontro na parada, dia sim, dia não. É bem possível que ele seja vigilante de algum prédio das redondezas (em se tratando de Brasília, melhor seria dizer quadradezas). Preocupado com o meu próprio ônibus, ainda assim percebi o moço correndo (e muito) para longe da parada. Bem à frente, uns 50 metros além da parada, havia um ônibus parado. Era em direção a esse ônibus que o moço corria – e levava estampado na cara o mais largo e agradecido dos sorrisos. Não teria me perdoado se tivesse deixado escapar a magia daquele gesto poético tão gratuito, tão fugaz, tão feito para a desatenção de todos nós. Eu senti em mim a felicidade do moço que, graças à delicadeza de um motorista para quem a vida não deve ser nenhum pouco delicada, pôde economizar um bom tempo de espera pelo próximo ônibus. E se o moço era um trabalhador da noite, como eu presumo, a pressa de chegar em casa devia ser grande. Daria tudo pra ter embarcado no mesmo ônibus apenas para testemunhar, uma vez mais, a cara de felicidade do moço, ouvir o que conversaria com o motorista emissário do gesto poético. Desejaria ficar mais tempo próximo daquela vibração de delicadeza tão rara nesses tempos ásperos e desesperançados. Fico feliz de ter aprisionado aquele flagrante de beleza que cruzou meu campo de visão em vôo ultra-rápido. O que vi e mal descrevi vai inteiro para o estojo da memória. E na alma fica o desejo de que outros gestos poéticos, tão mágicos quanto este, cruzem o meu (nosso) caminho. Assim seja!

© Nota de canapé: Livro do Rubem Alves. Nele o autor se dedica a percorrer, de forma romanceada, o itinerário espiritual de Gandhi.


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    Angela Delgado
    8 de novembro de 2012

    Muito bonita mesmo essa solidariedade e o seu testemunho significa outro gesto cheio de poesia e sensibilidade, marcantes em vc.
    Beijo.


    Tarlei
    8 de novembro de 2012

    Para repetir, mais uma vez, a expressão certeira da Alexandra Rodrigues, sou alguém sempre atento a toda beleza que “pousa no chão breve do cotidiano”. Quero poder seguir assim, sempre catando os brilhos do chão.
    Bj,
    Tarlei






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