À margem da linha ©
Categoria: Literatura

Tenho modos de coruja. Adoro observar o desfile da vida à minha frente. Estou sempre disponível para ser puxado para dentro do coração da vida.

Em certo domingo, eu voltava pra casa logo depois do café, da leitura e das compras da semana. Mal havia chegado na parada, eis que “meu” ônibus também chegava. Domingo é dia tranqüilo, ônibus vazios, trânsito levíssimo. Entrei e ouvi um senhor, que carregava sacolas e mochilas bem cheias, pedir ao motorista para abrir a porta de trás. Usuários com gratuidade entram pela porta da frente. Não entendi bem o pedido do senhor. O motorista abre a porta de trás esbravejando. Também não entendi a reclamação do motorista. Creio que o senhor nem ouviu nada, mas eu ouvi e me entristeci. Depois entendi que o senhor talvez tivesse feito o pedido apenas para não ocupar muito espaço na frente (carregava, como disse, sacolas e mochilas bem cheias). Ah, aquele senhor tão sozinho ficou gravado na minha retina! Bastou vê-lo e me lembrei de imediato de uma frase da jornalista Eliane Brum sobre a velhice que se vê errando desamparada: “A vida inteira espremida numa mala de mão”. A vida inteira daquele senhor estava agasalhada naquelas sacolas e mochilas. O senhor aparentava uns 70 anos, ar meio sujo, cabelos brancos e um pouco longos saindo de debaixo de um boné (com a logomarca do BB) bem puído e desbotado. Vestia camiseta listrada de azul e branco. Por baixo, uma camisa branca (bem encardida) e de manga comprida. Calça cinza e tênis completavam o vestuário. Na boca sobravam poucos dentes. Durante todo o trajeto eu o vi falando sozinho. Tudo tão triste de ver! Será que da árvore desse senhor brotaram frutos? E será que os frutos desgarraram-se da árvore de que vieram?

Minha vida esteve paralela à desse senhor por brevíssimos minutos. Ao nos separarmos, fui para o meu destino certo. Ele, para seu destino à margem da linha, o destino de quem “zanza daqui, zanza pra acolá, (…) periferia afora” (Chico Buarque). Aquele senhor era a representação daquelas “sementes (…) que já nascem com cara de abortadas” (Cazuza).

© Nota de canapé: Livro do escritor Paulo Rodrigues.


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