Exercícios de ser criança ©
Categoria: Literatura

Para umas coisas sou muito distraído; para outras, muito atento. A parte de mim que é distraída anda juntinha com a parte atrapalhada. Pra ser sincero, nem saberia dizer em que é que presto atenção. Talvez preste atenção no tanto que sou distraído. Ano passado, recém-chegado ao Face, percebi que muitas pessoas vinham substituindo a foto do perfil por imagens de desenho animado. Fiquei intrigado, mas não atinei com o motivo. Até que resolvi perguntar a uma sobrinha. E olha a explicação mais óbvia que eu, leitor arguto, não poderia ter deixado escapar: era um movimento no Face sugerindo às pessoas escolherem para imagem de seu perfil qualquer personagem de desenho animado com o qual se identificasse. Tudo por causa do dia das crianças. Como é que eu não pensei nisso, justo eu que me gabo de manter residência fixa na infância? Como é que eu deixei passar esse convite para o exercício de ser criança, eu que gosto de dizer que trago em mim um precioso lastro de infância? Mais que depressa alterei minha imagem. Escolhi o anão Feliz, da história da Branca de Neve. Passada a data, a imagem antiga retornou ao seu lugar e eu continuei fiel à felicidade de sempre e à distração que ninguém percebe. Aliás, acho que sou feliz justamente porque sou distraído. Não posso me esquecer do que disse Guimarães Rosa, o feiticeiro das palavras: “Felicidade, mesmo, só em horinhas de descuido”.

© Nota de canapé: Livro do Manoel de Barros que, do alto de seus noventa e tantos, jamais saiu da casa da infância.


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