Colheita
Categoria: Literatura

Um dos contos da escritora Nélida Piñon de que mais gosto é o que dá título ao post. Sumário do enredo: o marido resolve entregar-se à aventura de conhecer o mundo num longo périplo, ficando a esposa confinada à casa. Anos depois, quando ele regressa, ávido por contar tudo o que viu e viveu, é surpreendido pelo relato da mulher todo feito das miudezas do cotidiano, só que contado com um sortilégio tal que a aventura dele pareceu pequena, menor, pronto abdicando-se ele de contá-la tomado pelo fascínio do que tinha a mulher a contar. Também eu sofro de um encantamento pelo miúdo, pelo que costuma ficar confinado à invisibilidade. Reparto com o raro leitor o que apanhei de uma conversa que entreouvi.

É uma conversa ao telefone. Quem conversa é a minha companheira de poltrona numa viagem de ônibus. Uma conversa normal – tão normal que tive impressão de a mulher estar falando com o filho. De repente percebo que marido e mulher estão discutindo a relação. A mulher ouve muito e fala pouco. Pra euzinho que estava do lado de quem falava pouco foi uma agonia. A mulher pareceu magoada, queixou-se de umas coisas, e não conteve um discreto (discretíssimo) pranto – mão enxugando lágrimas, suspiros contidos… Tive pena. Quando falava, no entanto, não deixava entressentir essa fragilidade. A certa altura ela disse que não ia continuar discutindo pelo telefone. Conversariam pessoalmente. Ela estava no ônibus e tinha pessoas ouvindo. Senti que “pessoas” era comigo. E devia ser mesmo porque eu estava curiosíssimo. O fato é que encerrou a conversa. Ouvi dois ou três suspiros, vi duas ou três passadas de mão pelo rosto. Um tempo depois a mulher liga para uma tia. Conversa normalmente, pergunta banalidades, amenidades… Quase no fim da conversa, ela menciona uma discussão que teve com fulano. A tia parece curiosa do que houve – e minha curiosidade certamente não era menor. Quem sabe se pressentindo isso, a mulher disse apenas: “Depois eu conto os detalhes”. Ah, que golpe cruel na minha curiosidade! Eu precisava saber a história inteira, tomar partido. Do que entreouvi, ela parecia ter razão: equilibrada, sóbria, discreta… Também sei que por trás da aparente docilidade pode dormir uma serpente. Dizendo assim, entro na seara do julgamento infundado e eu queria tão só dispor dos fatos, não para um julgamento, mas para matizar a compreensão que julgo ter dos desvãos de todos nós!


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