Lembranças de velhos ©
Categoria: Literatura

(PSiu: Hoje é o dia do idoso)

Há tempos vivendo no Planalto, quando fico mais tempo em Minas gosto de circular pela cidade – e de ônibus. Foi numa dessas circuladas que constatei: Uberlândia é uma paisagem de velhos, para usar uma expressão do Nelson Rodrigues. Será que a constatação vem de eu já estar a caminho de compor essa paisagem? É possível. Fiquei impressionado com a quantidade de velhos nos ônibus. Não me lembro de ter viajado sentado nem uma vez. Embora já me sinta um pouco cansado, merecedor eu também de um assento preferencial, ponho a gentileza acima do cansaço e cedo sempre o lugar aos mais velhos. Se não me engano, os ônibus reservam quatro assentos preferenciais. Penso assim: em havendo idosos, portadores de necessidades especiais, gestantes e mães com crianças de colo, assentos preferenciais para esse público devem ser todos e não apenas os quatro formalmente reservados. Às vezes sinto um pouco de egoísmo nos idosos. Porque entre eles há os mais e menos idosos. Acho difícil que um menos idoso ceda lugar a um mais idoso. Lembro uma cena no metrô que ilustra bem esse egoísmo. Uma senhora idosa entra no vagão esbaforida, quase desesperada, como se dissesse: cadê “meu” assento preferencial? No rosto, um medo visível de que por acaso estivesse ocupado por outro idoso. Senti que pra essa idosa não importava que houvesse outros idosos necessitados. O jeito dela era: meu assento primeiro e pronto. Posso estar sendo injusto, mas eu raramente me equivoco nas minhas leituras. Fico triste de sermos assim. Como serei quando estiver “tecnicamente” velho?

© Nota de canapé: Livro magistral da professora Ecléa Bosi.


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