Viver para contar ©
Categoria: Literatura

Gosto de me contar. Vivo de me contar. O que não sei é se o raro leitor agüenta tanta contação. Habilitado para fazer conta (sou bacharel em Ciências Contábeis), para lidar com fatos contábeis, tomei um desvio e hoje quase que só cuido de fatos contáveis. E em vez de fazer conta, o que me apraz é fazer de conta. No mundo dos fatos contábeis, a cada débito corresponde um crédito de igual valor. No mundo dos fatos contáveis, a cada acontecimento mil e uma maneiras de contá-lo, de aumentá-lo, de enfeitá-lo… Não é que eu não goste da precisão contábil. A certeza de que dois e dois são cinco é confortadora. O mundo da contabilidade é um mundo seguro. Debitou e creditou, não tem erro. A vida é o reino do incerto, do quântico, e onde a conta não fecha nunca. Entre o fato e sua versão, um mundo de possibilidades. As imprecisões contáveis inflacionam os fatos, dão-lhes colorido… Daí eu gostar tanto desta frase de um conto da querida Nélida Piñon: “(…) e não é nossa missão na terra adornar com volúpia e açúcar-cande este bolo que nos foi legado?” Viver para contar é minha sina. Mas só gosto de contar contando com os acréscimos da imaginação, que não sou de ser fiel à verdade. Não se trata de mentir, o que é condenável, mas de enfeitar a verdade, o que julgo essencial. Não tenho apreço pela verdade nua. Gosto da verdade enfeitada: um brilho aqui, uma corzinha acolá e ei-la pronta para debutar na página em branco.

© Nota de canapé: Livro de memórias do fabuloso Gabriel García Marquez.


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    Angela Delgado
    22 de setembro de 2012

    Pena que eu não tenha esse seu dom de burilar a verdade… Adorei todas as frases desse seu post !


    Tarlei
    22 de setembro de 2012

    Angela,
    fico contente que você veja esse dom em mim. Embora contente, não sinto que o tenha. Ou talvez se trate de um burilar inconsciente e anterior ao ato de escrever. A escrita mesma é rápida — um corisco no caos (a expressão não é minha. A autoria não lembro agora).
    Abs,
    Tarlei


    Marcelo
    24 de setembro de 2012

    Palmas! De pé!
    De tirar o fôlego.
    No talo o tempo todo.
    Seu texto baila com leveza
    pelos salões
    de um viver que
    que se traduz em sinais,
    ensolarando as manhãs
    de um mundo imenso e azul.
    Seu texto veio na cadência
    de quem traz na bagagem
    inquietude e delírio.
    De lá chegam as letras finas do café!
    Abraço!
    Marcelo Ottoni


    Tarlei
    24 de setembro de 2012

    Querido Marcelo,
    seu comentário “veio na cadência de quem traz na bagagem” uma vasta provisão de poesia, a ponto de “desperdiçá-la” com um obscuro escriba.
    Muito obrigado!
    Abs,
    Tarlei






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