Mistérios ©
Categoria: Música

Diz o Affonso Romano de Sant’anna que a memória é um imenso retrovisor. Quando olho para o percurso que o meu caminhar já desenhou, fico espantado com o tanto de acontecimentos que roçam as dobras do mistério. “Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos”, como nos diz o feiticeiro Rosa. Fatos misteriosos tenho aos montes para contar. Conto alguns ao acaso.

Como é que um patrão (dono de um bar) aconselha o empregado a aceitar o convite para trabalhar num escritório de contabilidade? Isso me aconteceu. Esse patrão me achava inteligente, achava que eu devia estudar mais, ir em busca de uma oportunidade melhor. Não hesitou em me dar força. Não é um mistério? Outro mistério foi o convite vindo de um professor para trabalhar no escritório de contabilidade em que era sócio. Entre tantos alunos, por que convidou justamente a mim? O trabalho no escritório sem dúvida era melhor, mas o salário, não. Mesmo assim o patrão do bar aconselhou-me a aceitar. Aceitei. Fiquei no escritório por quase três anos, até o dia da mudança para outra cidade. A mudança não foi uma decisão. Foi uma tentativa que deu certo. Quando a necessidade (não a vontade) se impôs, meu pai reapareceu misteriosamente, depois de anos longe de casa. Não fosse a presença dele, é bem possível que minha mudança não tivesse se concretizado. Foi meu pai que me instalou na casa do avô paterno – avô com quem eu nunca tinha tido contato. Não é um mistério? Concretizada a mudança, a necessidade imediata era um trabalho. Não é que o trabalho apareceu? Assim: um professor meu, Areno Braz da Fonseca, conhecia um advogado da cidade e me deu uma carta de apresentação para eu levar a esse amigo. Levei. O amigo advogado me indicou para o escritório de contabilidade de outro amigo. Não é que fui aceito? Fiquei nesse escritório até entrar para um banco estatal. Entrei no escritório sem acertar salário. O primeiro pagamento foi uma decepção: um salário mínimo. Não lembro se manifestei minha insatisfação. O que lembro é que o segundo salário foi melhorado e em pouco mais de ano eu já ganhava TRÊS salários mínimos. Não era o máximo? Conseguido o emprego, era hora de pensar em trazer minha mãe e meus irmãos. Era preciso alugar uma casa. O patrão, Joaquim, foi meu fiador. Alugada a casa, minha mãe, amedrontada (com razão), decidiu não mudar. Lá fui eu desfazer o contrato. Depois de muito aconselhamento de amigos e parentes, minha mãe resolveu encarar a mudança. Voltei à imobiliária e não é que a casa ainda estava por alugar? Embora eu seja feliz onde quer que esteja, posso dizer que a memória de felicidade que trago daquela casa é das maiores. Era a prova viva do improvável acontecendo. Foi morando lá que passei no concurso de um banco. Foi morando lá que passei no vestibular.

Os mistérios não param por aqui, mas eu preciso parar. E só o Rosa para dar conta dos mistérios com estas palavras encantadas: “As coisas que acontecem, é porque já estavam ficadas prontas, noutro ar, no sabugo da unha. (…) Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!”.

© Nota de canapé: Uma parceria linda de Joyce e Maurício Maestro.


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    Angela Delgado
    20 de setembro de 2012

    Não é mistério, Tarlei. Todos os nossos atos têm consequências. É só isso. E a simpatia pessoal vai atraindo outros atos, que, por sua vez, têm as suas consequências e, assim vai, em uma bola de neve. Se há aí um Maktub, não sei. Acho que não. Do contrário, não haveria livre arbítrio.


    Tarlei
    20 de setembro de 2012

    Querida Angela,
    lendo seu comentário (obrigado!) e relendo o que escrevi, percebo que usei a palavra “mistério” mais com o sentido de “espanto”. Pra mim é um espanto ser alvo de tanta coisa boa. E sempre que algum gesto de bondade bate à minha porta, pergunto espantado: “Onde foi que eu acertei, meu Deus?”. E curvo-me mais que agradecido. De certo modo seu comentário responde a isso (atos geram conseqüências), o que não anula em mim a sensação de puro espanto.
    Bjs,
    Tarlei






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