No meio do caminho ©
Categoria: Literatura

No meio do meu caminho tem sempre um monte de pendências. Sempre foi assim. Tem tudo pra continuar sendo assim. As pendências são pedras que vou rolando morro acima – feito um Sísifo. Até o dia em que as pedras rolem por cima de mim. Por enquanto, apesar das pedras no meio do caminho, tenho encontrado caminho no meio das pedras. Até quando? Sinta o drama: acho caminho entre pedras e estou com dificuldade de encontrar um caminho entre as patas do bicho alfabeto. Perdi o rumo do texto. E tenho de ir em frente. No meio da falta de rumo há de aparecer algum caminho. Alguém já disse muito acertadamente: “Escrever é como dirigir com neblina à noite. Você só enxerga até onde alcançam os faróis, mas consegue fazer a viagem inteira desse jeito”. Felizmente a minha viagem é bem curta. São vinte linhas apenas, se tanto. Nem viagem é. São uns passinhos de nada. Mesmo assim não podem ser passos de um ébrio, daqueles que “guinam à direita e à esquerda, (…) escorregam e caem” (Machado de Assis). Os passos têm de ser decididos, resolutos. Tropeçar, jamais, mesmo com as muitas pedras no meio do caminho. Faço questão de sair do texto altivo – como agora. Quem me leia há de pensar que tenho a rédea do texto nas mãos. O certo é que não tenho “nada no bolso ou nas mãos” (Caetano Veloso). Assim “sem lenço, sem documento”, sigo em frente, acreditando que no meio das pedras sempre haverá um caminho.

© Nota de canapé: O poema-pedra que Drummond pôs no meio do caminho da poesia brasileira.


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    Angela Delgado
    17 de setembro de 2012

    Tarlei, você é fora de série! Mas deve estar cansado de saber…


    Tarlei
    17 de setembro de 2012

    Angela,
    fora de série é sua generosidade! Não canso de me surpreender.
    Abs,
    Tarlei


    Marcelo
    18 de setembro de 2012

    Genial, Tarlei.
    Também me sinto assim, esmagado, espremido por tantas tarefas, leituras e ações. Parece que só vou começar a viver depois de arrumar a bagunça do lar e de ler todos os livros da fila…
    O sentimento que percebi do seu texto (o da obrigatoriedade de fazer frente a tantos compromissos) escorre também de um poema meu:
    “Me sinto só com meus jornais e o desejo de saber das notícias da aldeia, dos murais de nossa história”…
    Mais uma vez, parabéns pela sua escrita fina e obrigado pelo seu último comentário no texto “Viver sem tempos mortos” Abraço.


    Tarlei
    18 de setembro de 2012

    Querido Marcelo,
    sem saber direito o que dizer, recorro a dois poetas da música. Um diz que “a gente quer ter voz ativa / no nosso destino mandar / mas eis que chega a roda viva / e carrega o destino pra lá”. Outro diz: “só comigo / mal comigo / no umbigo do deserto”. Ambos dizem do nosso esmagamento pela implacável máquina do mundo.
    Abs,
    Tarlei






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