A invenção de um modo ©
Categoria: Literatura

Sou o preguiçoso mais estranho que já conheci. Estranho porque, adorando ficar à toa, estou sempre fazendo alguma coisa. Tudo o que faço é pra me distrair do que de fato eu deveria fazer. A cada vez que decido “amanhã farei tal coisa”, sendo a tal coisa do universo prático, é tiro e queda: amanheço já pensando no que fazer para não fazer tal coisa. Porque o certo é que nunca estou sem fazer nada. Sabendo como funciono, e tirando proveito disso, é bom que eu acumule pendências porque, a cada vez que penso nelas, a reação imediata é escrever mais um texto. Confesso não estar mais conseguindo administrar – se é que alguma vez consegui – o caos que eu próprio instaurei. Quanto maior o caos, maior a necessidade da invenção de um modo de sobreviver a ele. A sensação que tenho é que sou habilíssimo em aumentar o caos que me rodeia. A vida vira uma fieira de obrigações e eu uma centopéia atrapalhada tentando não deixar que a fieira de demandas me enrede. A verdade é que estou irremediavelmente submerso num mar sem fim de afazeres sem fim. A vida tem fim; os afazeres, não. Enquanto escrevo este post, algum quefazer pus de lado. A culpa é da própria palavra: “afazeres” me remete sempre ao futuro. E pro futuro continuar futuro, ele não pode se concretizar nunca. E se há uma coisa que levo a sério é a palavra. A ela me rendo. É por isso que não toco nos afazeres que me esperam. Excetuando os de natureza inadiável, os demais deixo-os todos confortavelmente instalados no futuro. Esse é o modo que inventei pra levar a vida. Que ninguém me peça a invenção de um outro modo.

© Nota de canapé: Poema da minha amada Adélia Prado.


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