O patrão nosso de cada dia ©
Categoria: Música

Trabalho desde os 14 anos e tive alguns patrões antes de virar bancário, aos 19 anos. E digo patrão na verdadeira acepção da palavra. No banco não temos patrão. Temos chefes. E sobre eles, os chefes, cerro um silêncio de esfinge. Estou exagerando, claro. Tenho boas memórias de alguns deles. Hoje deu vontade de falar dos patrões que povoaram meu cotidiano laboral num curto período de cinco anos. O primeiro foi o Sr. Zé Galdino, nortista arretado de bravo. Embora bravo, eu me dava bem com ele – ou ele se dava bem comigo. Era dono de um armazém de secos e molhados. Eu trabalhava de domingo a domingo. Além de um salário certamente miserável, eu tinha direito ao almoço na casa dele. Essa parte eu adorava. Depois fui promovido a balconista de um bar central da cidade, o City Bar. O dono era o Sr. Waltercides Fraissat. Era também um patrão bravo – mas justo. E gostava de mim, me achava inteligente. Ele achava isso porque eu, um ano mais novo que outro primo que também trabalhava no bar, estava um ano à frente desse primo na escola. Lá, igualmente, trabalhava-se de domingo a domingo. Foi o Sr. Waltercides quem me aconselhou a aceitar o convite para trabalhar num escritório de contabilidade. O convite veio de um professor do colégio, o Hélio. Irê era a outra dona do escritório. Fiquei lá dois anos e meio. Eu era uma espécie de faz-tudo, indo de office-boy a escriturário de livros fiscais. Hélio era bravo como professor – morria de medo dele – e ótimo como patrão. Não ligava com nada, deixava a gente à vontade. A Irê era quem comandava. Por alguma razão que não me lembro, caí nas graças dela. Aí chegou a hora de bater asas para outra cidade. No meu caminho, mais um escritório de contabilidade aonde fui parar graças à indicação de outro professor. Os patrões eram os irmãos Joaquim (foi com ele que tratei do emprego) e o Reni. Eu contava com a simpatia do Joaquim e com a antipatia do Reni. O Reni não me tratava mal, mas era notório que ele não simpatizava comigo e era ele quem tocava o escritório. O Joaquim pouco aparecia. Como o Reni não tomava conhecimento de mim, foi um espanto quando anunciei a ele que tinha passado em um concurso para um banco estatal. Na verdade, ele nem sabia que eu tinha prestado concurso. E quando fui falar ao Joaquim sobre a minha saída do escritório, pensei que ele já soubesse da minha aprovação no concurso. Não, ele não sabia. O Reni não tinha dito nada. Fiquei nesse escritório quase dois anos. Lá pus o ponto final no meu período de senzala financeira. No dia 22.12.1982 cheguei à casa-grande de um régio salário (pra minha realidade, claro) em que estou instalado há quase 30 anos. Um pouco mais e será chegada a hora de bater asas para a alforria total. E é mais que chegada a hora de dizer que devo muitíssimo a esses patrões. Minha dívida de gratidão é irresgatável.

© Nota de canapé: Sucesso do grupo Secos & Molhados. O compositor é o João Ricardo, um dos integrantes do grupo.


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    Angela Delgado
    4 de setembro de 2012

    Além de um belo caminho, Tarlei, foi ele que o ajudou a fazer de você o que é hoje…
    Parabéns!


    Tarlei
    4 de setembro de 2012

    Verdade, Angela. Aproveito para compartilhar as palavras de uma amiga, comentadora freqüente aqui deste puxadinho, a querida Edna Freitass. Ela diz, e eu concordo, que é preciso “caminhar sempre, apesar da poeira”.
    Abs,
    Tarlei


    Angela Oliveira
    4 de setembro de 2012

    Tarlei, voltei depois de um longo e tenebroso inverno tecnológico!!! Vc tirou o vídeo do ar! Buá! Adorei a expressão “senzala financeira”… Talvez identificação… rs. Acho que vc exagerou nos “mim”, mas o texto é fofo!


    Tarlei
    5 de setembro de 2012

    Querida Angela,
    Acho que você exagerou no fofo (rsrs…), mas seu comentário me acordou para o exagero de “mim”. Reduzi-os de seis para dois, embora “mim” goste de exageros.
    Bjs,
    Tarlei






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