Admirável mundo velho! ©
Categoria: Literatura

Dia desses, ao deparar com o livro Admirável mundo velho!, tive uma daquelas “regressões proustianas e fatais” (Nelson Rodrigues). Lá estou, em 1982, tomando posse em certo banco estatal. Estava cheio de mim, afinal, em termos salariais, saíra de patinho feio e chegara a pavão. A primeira função foi carimbar “lotes” de documentos microfilmados – uma função nada nobre, mas o “régio” salário me recompunha a nobreza. Hoje tenho imensa saudade dos meus tempos de revisor de microfilmes, digitador, somador de cheques etc. Ah, a delícia das coisas menores – que ninguém vê!… Gosto tanto de bastidores, de invisibilidade! A vida profissional segue e acaba exigindo uma competência que a gente não tem, mas acreditam que a gente tem. E lá está você auditor ou coisa que o valha, cheio de pesadas responsabilidades, justo você que só queria trabalhos leves, feito aqueles de revisor de microfilmes etc., mas agora esperam de você relatórios, apontamentos de falhas, minúcias de processos gigantes, aí me pergunto: como sobrevivo? A verdade: ninguém está contente consigo mesmo, com as suas circunstâncias. Machado de Assis captou isso de maneira magistral. Está no poema que se chama Círculo vicioso e cujos versos finais são: “Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

© Nota de canapé: Livro do jornalista Alberto Villas.


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    Marcelo
    3 de setembro de 2012

    Você disse que tomou posse em um “certo banco estatal”, no ano de 1982… Isso me remete a uma incrível coincidência porque também eu tomei posse no BB, e naquele mesmo ano. Seu belo texto traz considerações que faço há três décadas! Tenho alguns escritos sobre a contradição entre habitar com leveza os campos da sensibilidade interior e o de guerrear insanamente no mundo frio da hierarquia bancária. Tenho um poema chamado “Saara” (que está no meu blog marceloottonicmenezes.blogspot.com.br) que tem uma passagem que diz assim: “Como sobreviver à gritaria do mundo se o olhar enfurecido da rotina interdita o caminho dos meus versos…” Parabéns pelos seus textos! Aos poucos vou adentrando este “planeta” luxuoso chamado ARTEVIDA. Abração.


    Tarlei
    3 de setembro de 2012

    Marcelo,
    quer dizer que somos companheiros de infortúnio? Rsrs… Há quase três décadas que também vivo o duelo entre as horas pagas e as horas vagas, com ampla margem a favor das horas pagas.
    Adorei o trecho do “Saara”. Vou procurar o poema todo.
    “Planeta” luxuoso? Muita gentileza sua. É só um satelitezinho vagando invisível pelo ciberespaço sideral. Nada mais! Ainda assim, obrigado pelo elogio mais que gentil!
    Abs,
    Tarlei


    Marcelo
    6 de setembro de 2012

    Tarlei,
    Obrigado pela resposta ao meu comentário.
    Gostei muito da imagem do “duelo entre as horas pagas e as horas vagas…”
    A sua escrita fina prima pelo bom gosto.
    É escrita lubrificada. As palavras saem lisas, ariscas; prontas para fazerem parte do cenário do mundo, onde tudo é imenso, onde tudo é imerso no caldo saboroso dos gestos que abraçam e das manhãs que se repetem à nossa revelia.
    Grande abraço.


    Tarlei
    10 de setembro de 2012

    Marcelo,
    fico encantado com seus comentários. Como é bom topar com o sopro da poesia na curva de uma frase! Obrigado por salpicar de brilho o chão do meu puxadinho.
    Abs,
    Tarlei


    Marcelo
    11 de setembro de 2012

    É que quando adentramos o seu “puxadinho”, temos que andar na ponta dos pés para não atrapalhar a brincadeira das palavras. Fico na espreita, acompanhando a felicidade com que se lançam de tobogãs imaginários e na hora da ciranda, quando as frases se enamoram, desapareço de cena, deixando a porta entreaberta pro mundo ficar mais azul. Abraço.
    Marcelo


    Tarlei
    11 de setembro de 2012

    Pura lindeza seu comentário, Marcelo! Meu silêncio de não saber o que dizer abre passagem para suas palavras encantadas. Obrigado!
    Abs,
    Tarlei


    Marcelo
    12 de setembro de 2012

    Obrigado, Tarlei. É que quando visito o seu “puxadinho”, desapareço de mim mesmo e me esqueço da rotina impiedosa que me suga os minutos com voracidade sem igual. É que quando desvio minha rota em direção à poesia, o chão se abre e sou tragado por um mundo de verso e fantasia, um mundo em que a moeda corrente não é obra do acaso e ninguém a procura, pois circula livremente pelos ares, com sublime cotação, definida por aqueles que tem ternura pelos seres. Abraço.


    Tarlei
    12 de setembro de 2012

    Querido Marcelo,
    fiz uma resposta do tipo duas em uma. Está no post “Viver sem tempos mortos”. Se puder, leia.
    Abs,
    Tarlei






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