Estranha forma de vida ©
Categoria: Música

“O correr da vida embrulha tudo”, diz Guimarães Rosa. “A vida (…) é um embrulhar-se sem onde”, diz Fernando Pessoa. Desnecessário dizer que me sinto o mais embrulhado dos embrulhados. Pra que a gente se desembrulhe é preciso romper alguma coisa. No meu caso, precisaria resolver algumas pendências pra me sentir menos embrulhado. Onde ânimo pra isso? Além disso, mesmo embrulhado tenho grande liberdade de movimentos. E tá bom assim. Nem sei como me sentiria se ficasse de todo desembrulhado. Deve ser uma sensação estranha não ter nada pra (deixar de) resolver. O que me dá gosto de fazer certas coisas – escrever, por exemplo – é me ocupar pra não ter de pensar em pendências. Escrever é preciso. Resolver pendências, não. Ler é mais que preciso. Adiar pendências, idem. E o simples fato de estar escrevendo tanto, e lendo outro tanto, revela o tanto de pendências que venho prorrogando triunfalmente. O que vale é que mantenho a ilusão de estar sempre fazendo alguma coisa, não necessariamente o que é preciso. Como é que eu preenchia o meu tempo antes de inaugurar este puxadinho virtual? Posso afiançar que não o preenchia resolvendo pendências, na mesma medida em que posso afiançar que estava fazendo alguma coisa. Nada – principalmente. E fazer nada não é pra qualquer um.

© Nota de canapé: Um fado que foi sucesso na voz da fadista portuguesa Amália Rodrigues. Caetano Veloso também gravou.


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    Edna Freitass
    26 de agosto de 2012

    Muito querido Tarlei, penso que o embrulhar e desembrulhar da vida é O GÁS que mantém aquecido esse palácio PUXADINHO virtual em que vc habita. quando desembrulhar esse último pacote que o prende vc viverá uma nova fase em seu PUXADINHO que tanto pode ser aqui quanto em outro lugar. o certo é que o embrulhar e desembrulhar da vida continuará mas em uma outra dimensão. será puro prazer. vc terá todo o tempo para isso. o tempo ainda será pouco para vc cobrir, dar conta das pérolas, das estrelas que vc verá em sua frente. Já pensou vc ter todo o tempo para olhar, ouvir, contar estrelas? as estrelas estão ali, aqui, acolá… na rua, no restaurante, no cafezinho da esquina, em casa, numa prosa lá em minas…. e vc, flâneur, ali, disponível, pronto pra colher, recolher, publicar, nos contar … será o sonho. ele chegará. sua fã, edna.


    Tarlei
    26 de agosto de 2012

    Minha querida Edna,
    você vive desembrulhando palavras as mais generosas em minha direção. O chão dos meus escritos fica todo constelado. Embrulho em papel celofane um muitíssimo obrigado!
    Abs,
    Tarlei


    Marcelo
    27 de agosto de 2012

    Tarlei, parabéns por mais este belo escrito! Também me sinto muitas vezes enredado pelas tarefas cotidianas, querendo ter mais tempo para os sonhos, para exercer a liberdade de caçar palavras e ficar em silêncio, ouvindo o zunir das coisas. Grande abraço!


    Tarlei
    27 de agosto de 2012

    Marcelo, obrigado por mais este belo comentário! Não bastasse estarmos enredados no mundo físico — tantos são os afazeres –, estamos também enredados no mundo virtual. E que falta faz o silêncio, que falta faz ouvir “o zunir das coisas”!!!
    Abs,
    Tarlei






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