Então você quer ser escritor? ©
Categoria: Literatura

Eu, Álter, por menos que deseje aparecer, tem horas que não dá. Tive de dizer ao Tarlei poucas e boas. Alguém precisa quebrar o espelho daquele Narciso. O Tarlei, com o jeito hábil de ir aliciando os amigos, acaba fazendo deles aliados receosos de contrariá-lo, e ninguém ousa dizer as verdades que ele precisa ouvir. Quando lhe atirei as perguntas que seguem, ele não disse palavra. Mas é claro que deve estar ruminando cada uma delas e logo me cobrirá de impropérios – que ele sabe ser desaforado quando pisam no seu calo. Eu pisei sem dó com estas perguntas: “Você não acha, rapazinho, que é pretensão demais querer ser escritor? Pensa mesmo que esses escritozinhos de circunstância o habilitam a esse duro ofício? Você se esquece de que escrever é sangrar abundantemente? Que se não há sangramento, tudo não passa de brincadeira ao redor do umbigo? Está mesmo disposto a sangrar até à última gota, você que adora amenidades? Tem consciência de que escrever pra valer é um salto no abismo e não um exerciciozinho de vaidade alimentado por meia dúzia de elogios domésticos, se tantos? Está preparado para dar a cara a tapa, você que só gosta de receber afagos? Acredita que o que escreve com os dedos da superficialidade tem interesse para além dos cinco amigos que o toleram por magnanimidade? Já se perguntou alguma vez sobre o que o leva a escrever: necessidade ou vaidade? Seria capaz de uma resposta honesta? Aonde você pensa chegar com esse amontoado verbal recheado de platitudes? Não está satisfeito de faiscar sua desimportância no céu do ciberespaço? Não acha que está de bom tamanho o espaço que te cabe neste nadifúndio? O que você quer mais? Pra quem não tem nada a dizer, não acha que já foi longe demais? Por que no te callas?”.

© Nota de canapé: Livro de contos do paranaense Miguel Sanches Neto.


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    Edna Freitass
    25 de julho de 2012

    Álter, agora é tarde. Diga ao Tarlei que este é caminho sem volta. Sangrando ou não, a estrada foi aberta e muitos por ela já circulam, passeiam e, pasme, senhor Álter … esses que circulam, passeiam, gostam E MUITO. Saiba tb, senhor Álter, que escrever, ainda que haja corte, sangramento, proporciona prazer. O Tarlei disfarça muito bem o corte, a dor e oferece ao leitor apenas e tão somente O PRAZER de ler o que ele escreve… para oferecer a nós, os leitores dele. Não adianta. Deixe-o continuar a abrir estradas, subir e descer montanhas, cair e se levantar. Se levantar para continuar. Sem parar. É caminho sem volta. Abraços procê, senhor Álter.


    Tarlei
    26 de julho de 2012

    Cara Edna,
    vejo que a srta. já foi cooptada pela astúcia do Tarlei. Fazer o quê? Há gosto para tudo. O Tarlei anda precisando de quem lhe corte as asas. Eu tentei. Com o apoio da srta. e de outros incautos, é certo que o Tarlei vai continuar lavrando o chão da palavra – e continuar fazendo poeira. Caminhe-se com uma poeira dessas!! Há quem consiga. A srta. mesmo, se não estou enganado, diz em uma belíssima frase que é preciso “Caminhar sempre, apesar da poeira”.
    Abraços, srta. Edna.

    PSiu: minha querida Edna, que bom que entrou na brincadeira!! Obrigado por sair em defesa desse humilde escriba, tão o contrário do que pensa o Álter.
    Abs,
    Tarlei


    Angela Delgado
    12 de agosto de 2012

    Não sou chegada a prêmios e badalações. Gosto mesmo é de ficar no meu canto lendo; lendo muito; relendo, em outras línguas, os livros de que gostei e, às vezes, escrevendo. Mas você tem que ganhar o prêmio Nobel!


    Tarlei
    12 de agosto de 2012

    Ângela,
    embora eu tenha aderido ao “imprudente ofício de viver em voz alta” (Rubem Braga), gosto mesmo é de bastidores. O que verdadeiramente agrada não faz barulho nenhum.
    Nobel? Pelamordedeus!! Desejo apenas, se não for demasiada pretensão, o prêmio de ser lido por poucos e bons.
    Abs,
    Tarlei






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