O homem que calculava ©
Categoria: Literatura

Graças às duas câmeras que trago nos olhos, estou sempre pronto a captar o que se passa ao meu redor – como esta história que pousou feito borboleta no colo da minha manhã.

Estava num hipermercado para tomar café e ler o jornal de sempre. Bem ao meu lado estava um casal de idosos. Só depois de ter tomado o café e de já estar avançado na leitura do jornal é que comecei a reparar no casal. Ela, bem vestida, batom, unhas feitas. Mexia sem parar na bolsa. Dispunha na mesa coisinhas (remédios?) embrulhadas em guardanapos. Bem possível que fossem remédios porque vi também embalagens de alguns. Será que quando chegar minha terceira infância terei muitos comprimidos no cardápio dos dias? Quem me chamou mais a atenção foi o senhor. Ele fazia a contabilidade doméstica. Reparei em especial no capricho ao usar régua para desenhar bem as colunas de “receita” e “despesa”. Ajeitando o nasóculos, ele ia lançando itens no “razão”. Havia muitos comprovantes espalhados na mesa, sinal de que levaria ainda um bom tempo até ele lançar tudo. Tomei café, li o jornal e eles continuavam lá. Calculo que o senhor estivesse fazendo o balancete do mês de junho, recém-findo. Fui-me embora desejando que, no fechamento do balancete do mês, o saldo pendesse para a coluna do “haver”, feito o saldo da vida que ambos exibiam, todo ele apontando para o lado do “haver”. Aquele casal era a perfeita representação da vida que merece ser vivida, bem o oposto das tantas vidas severinas que conhecemos.

© Nota de canapé: Famoso livro de Malba Tahan. Apesar do nome estranho, trata-se de um brasileiro.


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