O afeto que se encerra ©
Categoria: Literatura

Quem vive de captar o miúdo, não pode afrouxar o parafuso da atenção um minuto sequer. Quem me vê flanando por aí há de pensar que caminho distraído – e se engana. Estou sempre de tocaia para flagrar o que quase ninguém vê.

Fim de domingo banal, estou num shopping para o café da tarde. De repente vejo uma mãe tentando controlar, sem sucesso, uma criança aos berros. A criança é um garotinho de uns três anos que parecia indomável. Solta-se dos braços da mãe e continua aos berros. Apesar do incômodo com os gritos, não antipatizei com a criança. Antes me enterneci com o que aconteceu logo em seguida. O pai, que estava comprando um lanche, se aproxima, se agacha para ficar na altura do filho, abraça-o e começa a conversar. O pai quer saber o que há. A criança diz. O pai ouve com toda a atenção. E a criança já não tem mais nada da fúria de momentos antes. O pai pega a criança no colo e vai para o balcão – bem ao meu lado – esperar pelo lanche. É quando ele começa a dizer para o filho que é muito feio fazer o que ele fez; que não pode gritar com a mamãe; e muita coisa mais que não memorizei. Tudo foi dito num tom de voz calmo, afetuoso… E já não havia mais sinal da criança indócil de há pouco. Tive vontade de aplaudir aquele pai e sua perícia em pôr em prática a pedagogia do afeto, intuito que a mãe, certamente não menos afetuosa, não tinha conseguido. Fiquei encantado. O flagrante só confirmou aquilo em que sempre acreditei: só com a linguagem do afeto se consegue algo de alguém – estou falando do que se consegue de forma espontânea, porque a linguagem do poder consegue o que quer pela via do medo. Não era o caso ali – ali só havia amor. Lindo!

© Nota de canapé: Livro de memórias do jornalista Paulo Francis (1930 – 1997).


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