Milágrimas ©
Categoria: Música

Não é a primeira vez que acontece, mas é a primeira em que sou flagrado nessas circunstâncias. Explico: há textos que fazem transbordar meus minadouros faciais e de repente sinto milágrimas rompendo a margem dos olhos. E se isso acontece em público, o que não é infreqüente, trato de disfarçar até que o pequeno rio de emoção seque. Dessa vez não deu tempo. Justo no momento em que a emoção veio à tona dos olhos, estando eu na Galeria dos Estados, vem até mim a adolescente que trabalha conosco. Ela faz isso todo dia. Não deu tempo de disfarçar nada. Contava que ela não percebesse. Vai daí ela pergunta, no jeito descontraído que é próprio dela: “Tatá, não dormiu bem essa noite? Ou você tá chorando?”. Disse a verdade, já me recompondo. E expliquei que tinha acabado de ler um texto muito bonito e não tinha segurado a emoção. Pra falar a verdade, nem tentei segurar nada. Quando a emoção quer vir, deixo que ela venha, que se espraie, que ache o seu leito nas linhas da face. O único inconveniente é algum vexame, afinal leio bastante em lugares públicos. Em todo caso, não me lembro de maiores vexames. O que sei é que não sei represar a emoção. E deixo que ela mine discreta no lago dos olhos.

© Nota de canapé: Belíssima parceria de Itamar Assumpção e Alice Ruiz.


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    Edna Freitass
    4 de julho de 2012

    Tarlei, deixe que suslágrimas desaguem/transbordem nas linhas do texto, bem ao alcance dos olhos de seu leitor. Sempre!


    Tarlei
    5 de julho de 2012

    Edna,
    seu comentário trouxe uma leitura para “milágrimas” que não tinha me ocorrido. Você a leu como “minhas lágrimas” e a leitura cabe muito bem. Ao escrever, o que me ocorreu foi o milagre da emoção de um texto me levando às lágrimas, daí “milágrimas”. Isso só confirma o que nós, leitores, sabemos: os sentidos de um texto nunca estão totalmente dados. Eles se fazem é no ato da leitura. E como é bom contar com a sua generosa leitura, minha amiga!
    Abs, Tarlei


    Angela Delgado
    26 de novembro de 2013

    Pensei que já tivesse deixado um comentário aqui…
    Como me enganei, comento que também eu, em matéria de lágrimas, dificilmente me contenho. Uma vez, sentada em frente à Livraria Cultura, esperando que esta se abrisse e lendo um livro do Oleg Almeida, derramei minha emoção ali mesmo à mesinha.
    Um abraço.


    Tarlei
    26 de novembro de 2013

    Isso aí, Angela. É o milagre da palavra produzindo milágrimas… Em mim, em você, em quem mantém os poros abertos para observar, absorver e transbordar…
    Outro abraço!
    Tarlei






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