O homem da quitinete de marfim ©
Categoria: Literatura

Há quem veja rompantes de narcisismo em algumas brincadeiras minhas. Penso que isso é a outra face de alguém que não se leva sério e não se dá a mínima importância. Pra fugir do reles, eu, o homem da quitinete de marfim, invento meus castelos, brinco de me dar importância. É entre alguns amigos muito próximos que gosto de cometer brincadeiras que podem ser lidas como sendo de autopromoção. Isso me diverte. Meu medo é que tomem a sério o que é pura boutade, cena, teatro… Gosto de me pôr máscaras. E corro o risco de esquecer de retirá-las, tão divertida é a brincadeira. Aí me vêm aqueles famosos versos de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: “Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava colada à cara”. Penso que esse gosto pelas máscaras tem a ver com a aguda consciência do que de fato sou: “um fulano (…), um mano qualquer” (Caetano Veloso). Comigo me desavenho, sempre. E vivo o dilema: “Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim” (Comigo me desavim, Sá de Miranda). Pra compensar essa prisão sem habeas corpus, invento-me, reinvento-me, multiplico-me. Não quero ser um ou dois… “Eu quero ser trezentos” (Mario de Andrade). Que venham todos!

© Nota de canapé: Livro de crônicas do Marcelo Mirisola. É um grande escritor (pra ele mesmo, o melhor de todos) mas eu, embora beba água de todo rio, prefiro banhar-me nas águas de outro tipo de literatura.


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    Eudes Arduini
    28 de junho de 2012

    Quem te conhece um pouquinho sabe que, como poeta, pode escrever o que vier ao espírito… “Surtout, ne changez pas la façon d’écrire pour plaire aux autres.”


    Tarlei
    29 de junho de 2012

    Meu querido Eudes,
    em matéria de escreviver, não é fácil saber quando se ater, quando se atrever. Em todo caso, “non, je ne regrette rien”.
    PS: acabei de assistir a um show do jovem cantor Filipe Catto em homenagem a Cássia Eller e essa música (Non, je ne regrette rien) estava no repertório. Linda! Linda!


    Angela Delgado
    11 de agosto de 2012

    Você também fala francês… Que falha ter traduzido a palavra “bisous”!
    Sem querer desmerecer Cássia Eller, já ouviu a linda “Je ne regrette rien” com Isabelle Boulay? É só ir ao Youtube e deleitar-se.


    Tarlei
    11 de agosto de 2012

    Querida Ângela,
    costumo dizer que sou um monoglota empedernido. Tenho admiração pela língua francesa, mas minha fidelidade à última Flor do Lácio é irrestrita.
    Obrigado pela dica da Isabelle Boulay. Vou procurar.
    Abs,
    Tarlei






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