O Antinarciso ©
Categoria: Literatura

Com o poema No meio do caminho, Drummond atirou uma pedra certeira na vidraça da poesia brasileira. Lá estão estes versos: “Jamais me esquecerei deste acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”. Jamais me esquecerei da pedra que uma amiga atirou na minha vaidade: “Como será que Narciso se manifestará hoje?”. Claro que brinco. Os amigos podem tudo – e o fazem. E nesse fazer a leviandade está no topo. Não reclamo, acredite! Eu mesmo adoro cometer uma leviandade inocente. Não posso dizer que adoro do mesmo modo quando sou vítima dela. Os amigos, porque podem tudo, obrigam a gente a pensar em tudo que dizem sobre nós, sobretudo quando o que dizem contraria frontalmente o que pensamos de nós mesmos. Uma pessoa que não se dá a mínima importância ser chamada de Narciso dá o que pensar. Me sinto o antinarciso. Vale o que sinto? Deveria. Se o que sinto contraria a percepção dos meus espelhos, há um sinal evidente de que me traduzo muito mal. Há quem diga que não há tradução sem traição. Então é isso: sou vítima da minha própria traição. Não há de ser nada. Sigo em frente em busca de um espelho que me reflita tal qual sou – ou penso ser.

© Nota de canapé: Livro de Mario Sabino (nenhum parentesco com Fernando Sabino).


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress