Discurso à beira do caos ©
Categoria: Literatura

Na volta pra casa costumo passar por uma parada (ponto de ônibus) apinhada de gente. Sou pontual no horário em que passo por lá. Pontual também é um moço que vejo discursando por lá quase todo dia. Não parece ser um moço normal. Ele discursa alto, exaltado, mas eu, passando sempre apressado, não consigo apanhar nada do que ele diz. Embora o moço não pareça normal, ele sabe perfeitamente o horário de maior afluxo de pessoas e conta, por isso, com uma platéia numerosa. Esse moço, que nem sei se é tão moço, pertence à estirpe dos “loucos de água e estandarte” (Manoel de Barros). Costumamos olhar para esses “seres escalenos” (mais Manoel de Barros) com a superioridade de quem se julga assentado solidamente nos trilhos da razão. Será mesmo? Pierre Weil, fundador da Unipaz, chama de normose à doença da normalidade. Para ele, não é um sinal de saúde ser bem ajustado numa sociedade profundamente doente.

A Dra. Nise da Silveira jamais qualificou seus pacientes de neuróticos, paranóicos ou esquizofrênicos. Para ela, há pessoas que estão sintonizadas com outros estados do ser. Apenas isso. E infelizmente não temos nenhum preparo para lidar com esses outros estados. Se não sabemos lidar, a saída é rejeitar, segregar…

Já tive vontade de fazer um curso de especialização em Saúde Mental. O Instituto de Psicologia da Unb já promoveu um curso desses. Pena eu não ter tomado conhecimento na época. As desorganizações psíquicas podem trazer grande tormento tanto ao paciente quanto à família. E sinto que o passo mais curto para a cura dessas desordens está no acolhimento amoroso. O acolhimento em si não cura, mas sem ele não há cura possível – acho.

© Nota de canapé: Uma crônica louca – e deliciosa – do Paulo Mendes Campos (1922 – 1991).


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    katia simoes fletcher
    15 de junho de 2012

    O laço de amor nos dá segurança e chão, nos tirando da desordem e da instabilidade emocional que nos levam a tomar atitudes consideradas insanas. A base é tudo. bjs, Katia.


    Marlene Neves Markstein
    16 de junho de 2012

    A falta de sensibilidade em relação ao “outro” é terrível e parece estar aumentando nos dias de hoje; mas, pode ser que esteja sendo mais notada justamente porque a sensibilidade esteja aumentando.
    É bem verdade que um curso sobre saúde mental ou sobre saúde emocional nos deixa mais equilibrados ou mais saudáveis e nos capacita a compreender melhor a nós mesmos e aos outros. Há um tempo atrás eu estava justamente pensando sobre como as pessoas viveriam melhor se tivessem algum conhecimento sobre seus próprios desequilíbrios; em como isso as ajudariam a serem mais amorosas consigo mesmas e com os outros.
    Beijos.
    Marlene


    Tarlei
    17 de junho de 2012

    É isso aí, Kátia. É por isso que não me canso de repetir esta frase: “Nós não precisamos de muita coisa, mas precisamos — muito — uns dos outros”.
    Bj,
    Tarlei


    Tarlei
    17 de junho de 2012

    Querida Marlene,
    muito bem-vindas suas palavras — palavras nascidas do exercício de observar “a vida se vivendo em nós e ao redor de nós”, frase de Clarice Lispector que vivo repetindo. E no seu caso há o preparo profissional para a escuta atenta da vida.
    Obrigado pela visita e pelo comentário! Tá certo que foi uma visita “guiada” (rsrs…), o que não diminui em nada a alegria da sua aparição.
    Bj,
    Tarlei






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