O português que nos pariu ©
Categoria: Literatura

(PSiu: Hoje é o dia da Língua Portuguesa)

O português são muitos, dentro e fora do Brasil – e fora do Brasil a diversidade maior se dá entre o falar tupiniquim e o do colonizador. Estranho pensar que um oceano e uma língua separam portugueses e brasileiros. Há um pouco de exagero no que digo, mas também há um pouco de verdade. Sou um lusófono orgulhoso da última flor do Lácio, uma flor nascida na periferia do mundo e que apesar da expressividade numérica atual dos luso-parlantes mantém-se na mesma periferia onde nasceu, sem deixar de ser altiva, inculta e bela.

Uma historinha ilustra à perfeição a maneira como a língua comum desune Portugal e Brasil. O lingüista Paulo Rónai, lá na sua longínqua Hungria, resolveu estudar uma língua exótica. Escolheu o português, sem jamais suspeitar que uma guerra o forçaria a emigrar-se. Quando a realidade da emigração se impôs, o Brasil apareceu como possível destino. E lá veio ele para o Brasil, certo de que o conhecimento da língua garantiria uma fácil adaptação. A viagem marítima rumo ao Brasil teve uma parada em Portugal. Lá, o desespero: o lingüista húngaro não conseguiu entender palavra do que falavam. A viagem seguiu e o lingüista seguiu vergado de apreensão. Eis que quando o navio atracou em terras brasileiras, e para seu supremo regozijo, começou a entender milagrosamente aquela mesma língua que, falada em Portugal, pareceu-lhe outra língua e incompreensível. Imagine a sensação de ganhar uma língua de presente, sobretudo quando ele já a tinha dado por perdida!

O problema maior do português falado lá e cá é a velocidade e a pronúncia. Além disso, tem as milhares de expressões idiomáticas que fazem a alegria dos luso-parlantes de lá e de cá. Pequena amostra:

- Lá dizem autocarro, aqui dizemos ônibus.

- Lá dizem casa de pasto, aqui dizemos restaurante. Talvez passe a adotar casa de pasto. Bem mais apropriado para a quantidade diária de capim que compõe minha dieta.

- Lá dizem hospedeira de bordo, aqui dizemos aeromoça. A expressão de Portugal me parece bem mais precisa.

- Lá dizem carta de condução, aqui dizemos habilitação. Prefiro a solução lingüística de lá.

- Lá dizem autoclismo, aqui dizemos descarga. Não gosto de nenhuma.

- Lá dizem bairro de lata, aqui dizemos favela.

- Lá dizem mãos-livres, aqui dizemos viva-voz. Nossa solução é melhor, sobretudo depois dos telemóveis (ver adiante) em que o recurso de viva-voz não implica estar com as mãos livres.

- Lá dizem buzaranha (que nome estranho!), aqui dizemos ventania. Prefiro, de longe, ventania.

- Lá dizem demasia, aqui dizemos troco.

- Lá dizem direito de antena, aqui dizemos horário político.

- Lá dizem durex, aqui dizemos camisinha.

- Lá dizem fita-cola, aqui dizemos durex.

- Lá dizem em diferido para transmissão não ao vivo e em direto para transmissão ao vivo. Estranho.

- Lá dizem estendal, aqui dizemos varal. Estendal tem muito mais a ver com o lugar onde se estendem roupas.

- Lá dizem feijão verde, aqui dizemos vagem. Acho que dizemos melhor nomeando o vegetal como um todo e não apenas parte dele, que é o feijão ainda verde.

- Lá dizem mulher-a-dias, aqui dizemos diarista.

- Lá dizem bicha, aqui dizemos fila.

- Aqui dizemos bicha (releve!), lá dizem paneleiro. Lá e cá, soluções lingüísticas horríveis.

- Lá dizem pastilhas elásticas, aqui dizemos chiclete.

- Lá dizem pequeno almoço, aqui dizemos café da manhã.

- Lá dizem telemóvel, aqui dizemos celular. Aqui dizemos, vírgula – aqui dizem. Porque eu, doravante, vou passar a adotar a solução portuguesa.

- Lá dizem piada, aqui dizemos graça. No que achamos graça, os portugueses não acham piada nenhuma, principalmente nas piadas.

Cá me pergunto: ô pá! Não tens mais o que fazer? Cá me respondo: ter, tenho, ô pá! Mas estou a procurar um jeito de não ter.

© Nota de canapé: Livro de Ângela Dutra de Menezes.


(8)


    Hilda
    10 de junho de 2012

    Que lindo, Tarlei!
    Criativo, comentado, alegre, correto. Como tu. Que é um enorme prazer conhecer (pena de quem não te conhece… não sabe o que está perdendo!!!).
    Continua poetando para as pessoas que te lêem / vêem.


    Tarlei
    10 de junho de 2012

    Profª Hilda,
    que prazer receber um comentário tão generoso de alguém a quem devo tanto!! Muito obrigado!
    Não sei se poeto. Sei apenas que tenho um olhar encantado para a vida.
    Abs,
    Tarlei


    Alexandra
    12 de junho de 2012

    Oh Tarlei, não é que me reconheci na sua bela e divertida crônica acerca dessa língua que nos separa e une? No início da minha vida no Brasil comecei a escrever um pequeno dicionário para poder sobreviver sem enganos graves.
    Deixo aqui, em retribuição, um pequeno desafio que fiz para você se divertir traduzindo:

    O picheleiro tirou a massa da algibeira quando tomou o autocarro.


    Tarlei
    12 de junho de 2012

    Oh Alexandra, o meu passeio entre expressões de lá e de cá foi guiado pelo Google. O mesmo Google não me ajudou no desafio que me propôs. Fiquei curioso.
    Abs,
    Tarlei


    Alexandra
    13 de junho de 2012

    Vamos lá à tradução:

    O encanador tirou a grana do bolso quando pegou o ônibus.

    Viu como sou bilíngue?

    Beijo,
    Alexandra


    Tarlei
    13 de junho de 2012

    Grato pela tradução, Alexandra.
    São apenas duas palavras de sentido desconhecido (picheleiro e massa), o que bastou para eu não conseguir completar o sentido da frase.
    Bom mesmo foi brincar de “sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões” (Caetano Veloso).

    Bj,
    Tarlei


    Angela Delgado
    12 de agosto de 2012

    E você usou a expressão “vírgula!” Sabe que recebi de herança, após o falecimento de minha mãe (há 5 meses sofridos), um “datiloscrito” encantador de um irmão dela (que escreveu o MARAVILHOSO “Ópera do Poeta e do Bárbaro”)?. “A Turminha dos Valentões” é um livro juvenil, completamente diferente do citado acima, mas, como o autor é de sua estirpe, maravilha também os adultos. Em um dos diálogos, há a expressão que você usou, mas que tive que mudar, porque a jovem proprietária da papelaria onde mandei imprimir o trabalho de digitação não a conhecia. Foi quando saquei que a geração de hoje não só não a usa, como nunca a ouviu! Como não queria mudar para “porra nenhuma”, transformei-a em “- Maluquice, nada, viu?!”. Não sei se você faria diferente.
    E vou te recomendar o site “www.aresemares.com” de lusófonos. Se escrever para o Armando (a.ribeiro.consultor@gmail.com), ele o publicará nesse site com o maior prazer!


    Tarlei
    12 de agosto de 2012

    Querida Ângela,
    “Pai e mãe [são] ouro de mina” — me identifico com esse trecho de uma letra do Djavan. E quando os perdemos, um veio seca dentro de nós. Meu pai encantou-se há muito tempo. Minha mãe mora em Minas, para onde devo voltar ano que vem com o especial objetivo de estar perto, cuidar, amparar… E aqui vão meus sentimentos pela perda tão recente da sua mãe!!
    Grato pela dica do site. Vou escrever, sim, para o Armando. E olha que mágica sincronia: ontem mesmo vi lá no blog da Cínthia (palavrasabracadas.blogspot.com.br) uma chamada para essa página, fui lá, espiei e fiquei me perguntando: como será que se faz para publicar nesse site? Hoje a informação pousa magicamente na minha tela. Obrigado!
    Abs,
    Tarlei






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