A esperança nos pequenos gestos ©
Categoria: Literatura

Embora às vezes eu seja acometido de alguns rompantes de indelicadeza, no correr miúdo da vida, no invisível das horas, estou sempre atento às necessidades do outro, estou sempre pronto a distribuir pequenos gestos de atenção. Num sábado qualquer, comprei um lanche para um encanador que ia me prestar um serviço. Não deu certo de ele vir. Resolvi oferecer o lanche pro porteiro do dia, o Josevaldo, novo na portaria do prédio. Fui honesto. Preferi não mentir dizendo que tinha comprado o lanche pra ele. Não fez diferença. Quando ofereci o lanche, o rosto dele abriu-se no mais agradecido dos sorrisos. Mais tarde um pouquinho, com a proximidade instaurada pelo meu pequeno gesto de atenção, ele me contou que estava fazendo 21 anos naquele dia. Me contou, ainda, que está há apenas 5 meses em Brasília, tendo vindo lá do interior do Ceará. Fico imaginando a vida difícil que o Josevaldo deve levar. Sabendo disso, vou procurar agradá-lo mais amiúde. E faço agrados também para os demais que trabalham no prédio. E faço pequenos agrados para a Silvani, minha diarista. Tudo miúdo. Tudo quase invisível. Aos sábados e domingos, deixo os jornais lidos com as atendentes da Casa do Pão de Queijo. Por esses dias, a caminho do restaurante Green’s, tenho cruzado com uma mulher e uma criança. O que me chama a atenção na mulher é o fato de ela não pedir nada. E será mesmo preciso que peça alguma coisa com o olhar tão triste que tem? Não é preciso mais que esse olhar para saber que ela precisa de ajuda. Não a vejo todos os dias e nem sempre estou com dinheiro, mas sempre que a vejo e estou com dinheiro deixo uma ajudazinha. Ela agradece com um Deus abençoa sincero, sem que o olhar triste se altere. Dia desses cruzei com ela (e a criança) na ida para o Green’s e estava sem dinheiro. Comprei no Green’s um pão de mel e um chocolate e deixei com ela na volta. O mesmo agradecimento com o mesmo sorriso mais triste do mundo. Sei que meu gesto é um nada em meio a tanta tristeza e necessidade. Nem por isso vou deixar de ter esperança nos pequenos gestos e muito menos deixar de espalhá-los.

© Nota de canapé: Uma belíssima crônica do Alcione Araújo que está no livro Cala a boca e me beija. O livro foi um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom, edição 2011.


(2)


    Alexandra
    12 de junho de 2012

    Pequenos agrados, tudo miúdo e quase invisível…este seu texto me tocou muito! Acredito em pequenas delicadezas, embora tantas possibilidades me escapem neste chão incerto do cotidiano. Por vezes, quando o meu olhar se cruza com um olhar encharcado de tristeza no meio da rua, minha pequena humanidade se sente ameaçada de ruir. É preciso coragem para nos permitirmos comunicar com esse olhar. Ele dói no fundo do nosso. Por isso acredito no valor desses minúsculos gestos de atenção. E lhe agradeço a atenção de reparti-los e espalhá-los em forma de escrita, como você tão humanamente faz.

    Beijo,
    Alexandra


    Tarlei
    12 de junho de 2012

    Querida Alexandra,
    não sou o mais desenvolto nesse tipo de interação. Ainda assim, confio em que meu gesto de atenção possa se sobrepor à falta de jeito. Deixo que minha humanidade essencial me guie. Tem dado certo.
    Obrigado pelo comovido comentário!
    Abs,
    Tarlei






© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress