Polaróides urbanas ©
Categoria: Cinema

O grande poeta Manoel de Barros se diz um apanhador de desperdícios. Eu digo de mim que sou um apanhador de flagrantes. Meus olhos são duas polaróides prontas a captar o efêmero.

Por conta da homenagem a uma colega recém-aposentada, tive de ir a um shopping aonde quase nunca vou. Feita a compra, fui para a parada de ônibus. Passava pouco das 18 horas e lá havia três crianças uniformizadas – duas meninas e um menino. Sou péssimo de cálculo de idade, mas penso que elas tinham não mais que dez anos. Todas traziam no olhar aquela curiosidade acesa que se encanta com qualquer mínimo acontecimento. E conversavam, e riam, e brincavam… Entretidos entre si, não deixaram de perceber um professor passando pela parada. E uma das garotas disse, animada e surpresa: “Oi, professor fulano!”. Mais conversas, mais risos… De repente o garoto se lembra que só tinha um passe escolar. E pelo desenrolar da conversa, descobri que iam todos para a rodoviária e de lá pegariam outro ônibus. O bacana foi a desenvoltura do garoto ao decidir ir a pé para a rodoviária – uns 20 minutos de caminhada. Antes, houve toda uma combinação de onde iriam se encontrar na rodoviária, já que o garoto deixaria a mochila com as garotas. Todo animado com a aventura da caminhada, o garoto saiu correndo a passos velozes como se corresse para uma missão muito importante – e não tive dúvidas de que fosse. Fiquei enternecido com essa cena tão rápida. E me lembrei desses versos de uma canção do Caetano: “Eu vi um menino correndo / Eu vi o tempo / Brincando ao redor do caminho daquele menino”. O meu olhar para aquele menino era um olhar para o menino que fui – e senti saudades.

© Nota de canapé: Filme escrito e dirigido por Miguel Falabella.


(2)


    Eudes Arduini
    21 de maio de 2012

    Que lindo deve ter sido. Você realmente conseguiu transformar um momento tão corriqueiro em algo poético!
    Um abração.


    Tarlei
    22 de maio de 2012

    Amigo Eudes,
    que bom que gostou!
    Penso que isso de ver poesia no corriqueiro vem de eu estar sempre disponível para ser encantado pelos brilhos do chão.
    Abs,
    Tarlei






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