Pequenas epifanias ©
Categoria: Literatura

(PSiu: Escrito há um ano por ocasião da presença do escritor Alcione Araújo em um evento no CCBB Brasília.)

Está em andamento no CCBB o projeto “Escritores brasileiros”. Todo mês há um escritor convidado, que vem acompanhado de um ator ou atriz que lê trechos de sua obra. Ontem foi o dia do Alcione Araújo, cronista dos melhores, além de romancista, dramaturgo, roteirista de cinema e TV. Ele veio acompanhado da atriz Eliane Giardini. Tenho um xodó por crônica. Li os três livros de crônicas do Alcione, sendo o mais recente o Cala boca e me beija. O encontro fluiu tranqüilo, gostoso, aconchegante… Eu adorei a fala do Alcione – humana, acolhedora, envolvente… Eu adorei as crônicas lidas pela atriz Eliane Giardini. Éramos uma platéia pequena. E rimos muito. E nos descontraímos. Noite perfeita, mesmo eu tendo de abrir mão do caldo no restaurante Green’s. Alcione falou, Eliane leu, aí chegou a hora das perguntas. Embora eu seja muito curioso, não gosto de perguntar nada, fico inibido, acho que não tenho nada de relevante para perguntar. Mesmo assim, pedi o microfone. E não fiz pergunta alguma ao Alcione. Apenas comentei do meu prazer de ouvi-lo, eu que já tinha vivido o prazer de tê-lo lido e me emocionado com várias crônicas. Aproveitei para mencionar a crônica que mais me emocionava – e emociona. Choro toda vez que a releio. A crônica se chama Mestre e é uma comovida homenagem a um professor de Português apaixonado pela língua, pela literatura… Esse professor é atropelado por uma cegueira no meio do ano letivo. Alcione era seu aluno. Quando terminei de dizer o quanto essa crônica me emocionava, Alcione já estava chorando, emocionado. Eu fiquei sem graça – não tinha essa intenção. Só queria comunicar minha emoção de leitor. Eliane Giardini, apoiada pelo Alcione, logo se interessou por ler a crônica. Eu sugeri que talvez não fosse o caso, estávamos num clima tão alegre, e a crônica era daquelas de rasgar o coração. Alcione insistiu, ainda emocionado. Resultado: Eliane leu, lágrimas escorriam pelo rosto do Alcione, eu também me emocionei (bem menos do que quando releio sozinho), a platéia ouviu em silêncio… E, por essas conjunções inexplicáveis, aconteceu ali uma pequena epifania. Do mesmo modo que a turma de alunos assistia, em silencioso pranto, à magnífica aula do Prof. Luiz Gonzaga, o que se assistiu e se viveu, ali, no CCBB, foi a mesma emoção silenciosa, a magia da palavra nos transportando, eternos alunos, para aquela sala de aula, corações abertos para a vida feita palavra – vida que se desdobrou à nossa frente na magnífica crônica Mestre. Que noite!

© Nota de canapé: Belíssima crônica do Caio Fernando Abreu (1948 – 1996). Com o título original de Pequenas epifanias alterado para Dois ou três almoços, uns silêncios, pode ser lida aqui. A crônica Mestre está anexada a este post.


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