Cenas da vida ©
Categoria: Literatura

Isso de estar disponível para apanhar no chão do cotidiano pequenas histórias acaba sempre me regalando com cenas que preciso registrar – e repartir. Guardei no alforje da memória duas cenas colhidas num dia de domingo.

Estou na parada de ônibus, de volta pra casa logo depois do café, da leitura e das compras. Começo a ouvir a conversa de três mulheres. Se a conversa me interessa, e quase todas me interessam, arranjo um jeito de ficar mais próximo, assumindo o risco da indiscrição em favor da curiosidade. Logo percebo que são mães com filhos internados no CAJE – Centro de Atendimento Juvenil Especializado. Apesar da imponência do nome, trata-se de uma espécie de FEBEM. Ali são recolhidos menores infratores. As mães dividiam entre si as aflições próprias de quem tem filhos nessas condições. Todas muito pobres, um ar cansado, todas vindo de bem longe. Uma delas falava da angústia que era chegar o sábado à noite e ainda não ter conseguido dinheiro para o ônibus. Outra falava do aperto no coração que era não poder ir, sabendo que o filho estaria contando com a presença dela, a mãe. São todas mães muito sofridas, mas não vi em nenhuma delas sinal de desalento diante das circunstâncias. No rapidíssimo contato com aquelas mães pude ver um pouco do que diz o Affonso Romano de Sant’anna: “Há pessoas que, embora roxas de levar tanta pancada na vida, têm um arco-íris na alma”.

Para compensar a cena triste, uma cena linda iluminou a tarde daquele mesmo domingo. Estou num shopping para o café de depois do almoço e para a leitura de mais um jornal. De volta para casa após o café e a leitura, vejo um casal andando abraçado. Nada demais se o casal não fosse pai e filho, e não fosse o pai estar em plena terceira infância (calculo mais de 80 anos), e não fosse o filho estar debutando na segunda infância (calculo uns 60 anos). E não era o filho abraçando o pai como se o amparasse. Era o filho abraçado ao pai (pelo ombro), era o pai abraçado ao filho (pela cintura). Refém de cenas assim tão lindas, dou um jeito de ficar por perto, muito disfarçadamente, para ver o que mais posso colher na superfície do instante fugaz – cuidando de eternizá-lo na minha memória.

© Nota de canapé: Livro do Rubem Alves.


(2)


    Edna Freitass
    1 de julho de 2012

    Tarlei,
    Agrada-me perceber/constatar que vc colhe O REAL. Que vc vai/está onde a vida pulsa (na rua). Você bem que poderia ficar entre quatro paredes imaginando um mundo real/ideal. NÃO! vc prefere colher o que vê, o que ouve, o que consegue ouvir …. um pouco daqui, um outro dali e o resultado é essa colcha, costura de vidas, humanas, reais. Eu, por sua vez, fico aqui, lendo vc, suas costuras reais. inté.


    Tarlei
    1 de julho de 2012

    Querida Edna,
    sempre uma honra saber que vc aprecia o que colho “no chão breve do cotidiano” (Alexandra Rodrigues).
    Abs,
    Tarlei






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