Outro retrato ©
Categoria: Música

(PSiu: Não é novidade que somos seres quânticos. Em termos quânticos, o “eu” que se estabiliza numa dada identidade é só um de muitos “eus”. E se não alcançamos todos esses “eus”, um pelo menos nos é familiar: o alter ego. O outro que trago nas dobras do “eu”, trago-o também nas dobras do nome. Tenho a palavra Álter abrigada no meu nome. Sendo hoje meu aniversário, o Álter que há em mim resolveu me presentear com o retrato que segue.)

“O tal Tarlei é um tipo perigoso que se esconde atrás de uma enganosa suavidade de feições. Quem experimenta lhe dar trela, está perdido, não terá mais sossego. O perigo está na sua natureza sinuosa e na extrema facilidade que tem para distorcer as circunstâncias em seu favor. Esse poder de contornar situações às vezes delicadas o faz acreditar que tem o dom da diplomacia. Pensa, com alguma insistência, que deveria investir nessa carreira, não importando que já esteja às portas do meio século. Pensar numa tal carreira é pensar em milagres posto que, a essa altura da desmemória e do cansaço, estudar é coisa que não consegue mais. É um sonhador. E sonhos, sonhos são. Camaleão esperto, combina humildade e narcisismo com a naturalidade de quem ignora solenemente o despropósito de uma tal combinação. Tem uma inequívoca vocação para a tirania, doce herança materna, mas procura disfarçá-la com a máscara de uma calma búdica. Não adianta: quando é contrariado, o sangue ferve-lhe nas veias taurinas. É bem possível que deva a esse sangue quente a hipertensão que o acompanha há já certo tempo. Ostenta uma natureza ao mesmo tempo curiosa, distraída e atrapalhada, colecionando em cada um desses domínios malfeitos monumentais. Seu maior prazer é espalhar ninharias a quantos incautos (pobres deles!) lhe dêem atenção. Nadifundiário, adora lavrar as terras da escritura e pôr nelas uns canteirinhos invisíveis. Tem horror às pessoas que resolvem questões da vida prática com aquela facilidade que ele gosta de chamar de desumana. Graças à falta de senso prático, vive rodeado de pendências. À falta de senso prático soma-se uma certa lentidão de raciocínio – eis pronto o cenário para um mar de confusões. Dele se pode dizer, sem medo do paradoxo, que é um tímido exibicionista, tanto ele gosta de se mostrar aos que admira – já deu jeito de se achegar aos escritores Nélida Piñon, Adélia Prado e Luiz Ruffato. Parece ter uma permanente alegria grudada no rosto, não sendo implausível admitir que há um quê de mistificação nessa alegria toda, tão enganosas são as aparências! Gaba-se da silhueta que mantém aos 49, esquecido da barriga que insiste numa curvatura não exatamente côncava, das rugas que, à custa de tanto rir (de quê, meu Deus?), fazem morada na geografia móvel do rosto, dos cabelos que desertam e, quando não, embranquecem… É do tipo que segue em frente, sempre… Como se houvesse alternativa diferente dessa! Por menos que me agrade, ao menos uma qualidade é preciso reconhecer nele: não guarda mágoa. Prova-o a liberdade com que estou fazendo o retrato, nada lisonjeiro, de alguém que adora elogios. Rogai por ele!”

© Nota de canapé: Canção do Caetano Veloso. Está no CD O Estrangeiro.


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    Alexandra
    9 de maio de 2012

    Querido Tarlei,

    é preciso coragem para pintar o tal retrato com as aquarelas da palavra, justamente no dia em que o espelho convoca ao reconhecimento do que parece desbotar no quadro egoico.

    Sonhador e escrevinhador de carreira, esse aniversariante ainda se encanta com a linha, que o transporta na sua garupa à pele do mundo e aos lugares de dentro, e com a lupa, que amplia em olhares mil as invisibilidades do cotidiano.

    Meu afetuoso abraço de parabéns!

    Alexandra


    Tarlei
    10 de maio de 2012

    Querida Alexandra,
    suas palavras acendem belezas tantas no caminho desse escrevinhador! Muito obrigado!

    Não passo de um equilibrista da linha do tempo e o mais que faço é costurar os fios que a vida não cessa de lançar em minha direção.

    Abs,
    Tarlei


    Angela Delgado
    12 de agosto de 2012

    Você é demais!! Comentário breve, para seguir navegando e me enfeitiçando…


    Tarlei
    12 de agosto de 2012

    Ângela,
    ao ler seu comentário, não pude evitar este pensamento: o de que todo feitiço pode se voltar contra o feiticeiro. Assim: você, navegando pelos meus excessos, pode deparar com um texto de que não goste e aí serei eu vítima do feitiço que você me atribui. Que assim não seja!
    Abs,
    Tarlei






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