Com licença poética ©
Categoria: Literatura

(PSiu: escrito em resposta à advertência de uma amiga, incomodada com o excessivo auto-centramento dos meus textos. Vali-me da moldura do lindíssimo poema escrito pelo jornalista Daniel Piza, morto recentemente na flor dos 41 anos. O poema é em homenagem a João Cabral e pode ser lido aqui.)

ARTE E VIDA SEVERINA

Maneira de escrever que eu pretendi:
não a escrita frondosa, cheia de si.
Antes a escrita baldia, reles, miúda,
que se aninha nas leiras da lauda.

No papel (entre uma linha e outra) disponho
– cão vadio, vira-letras – o que apanho
no chão da minha vida severina:
cacos, ciscos, ninharias – o que de mim mina.

O lápis na mão, a mão no papel,
traço o círculo de giz que me contém.
De tão mínimo, nele, além de mim, cabem
ruídos poucos do que vai no carrossel

do vasto mundo. Só o que escrituro:
palavras ao redor do umbigo. E se
não posso outra dicção, não me esconjure!
É a maneira de escrever que consegui.

© Nota de canapé: Primeiro poema do primeiro livro da grande Adélia Prado. Conversa de gente grande, o poema dialoga com o primeiro poema (Poema de Sete Faces) do primeiro livro de Drummond.


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