Bugre ©
Categoria: Música

Ter passado parte da infância na roça e o resto da infância e toda a adolescência na minúscula (e querida) Buriti Alegre fez de mim um provinciano nato e hereditário. Por isso, gosto de dizer que não passo de um “bugre perdido na luz de néon”. Minha alma bugra se espanta com tudo que vai no carrossel do mundo, vasto mundo. O bugre que sou não gostou tanto do período vivido na roça. Era ainda filho único e não tinha com quem brincar. Deve vir daí o gosto da solidão. Quando fui pra cidade, fiquei com “saudades de roça e sertão” (Chico Buarque). Matava essa saudade indo passar férias na roça. As férias em companhia da Madrinha Fia são as mais memoráveis. Ela virou madrinha a despeito de termos idades bem próximas – um dia cismou de me batizar na fogueira. Ficou sendo, desde então, a Madrinha Fia. O nome mesmo é Ivonete, mas ninguém a chama assim. A mãe é a Dona Zinha – todos a chamam assim –, mas o nome de batismo é Eremita. Era em companhia de mãe e filha (a mãe era caseira num sítio próximo à cidade) que eu passava as férias – e nada demais havia nelas. Nossas brincadeiras eram: cantar em dupla em cima de um monte de lenha logo depois de gritar os peões (eles ficavam longe, na lavoura) anunciando o almoço – a gente se exibia para eles, a platéia possível; falar na língua do “P” perto de uma vizinha que nada entendia – e como ríamos dessa estripulia; brincar de esconder no meio do arrozal – éramos facilmente achados porque não conseguíamos segurar o riso. Que mais? Tinha a comida no fogão a lenha; tinha a colheita de melancias no meio do arrozal – eram partidas e chupadas ali mesmo; tinha a noite e as histórias contadas pelos peões à luz de lamparinas – aí éramos nós que virávamos platéia. Olhando daqui, vejo aquele sítio no lugar chamado Cachoeira Alta como sendo o nosso Sítio do Pica-pau Amarelo. Era tudo encantado, mágico, telúrico… Foram tempos muito divertidos. Devo dizer que, apesar de todos os percalços próprios do viver, minha vida seguiu e segue muito divertida. E eu sigo sendo o mesmo bugre que, a despeito dos tantos anos vividos em cidade grande, adoraria poder se esconder na taba de um índio.

© Nota de canapé: Bela parceria de Luhli e Lucina. A gravação do Ney Matogrosso pode ser ouvida aqui.


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