É tudo verdade ©
Categoria: Cinema

(PSiu: Escrito há 2 anos, no calor da emoção de ter assistido ao belíssimo documentário Só dez por cento é mentira)

É verdade que a desbiografia oficial de Manoel de Barros é ouro de mina.

Que a poesia (de Manoel e de todos) é para ser descoberta, não para ser descrita.

Que poesia é feita para incorporar, não para compreender.

Que o poeta é um sujeito com mania de comparecer aos próprios desencontros.

Que o traste, o desprezado, aquilo que é habitado pelo privilégio do abandono, ganha no filme o mesmo destaque que tem na poesia do Manoel.

Que o Bernardo da Mata, alter ego do Manoel, era dono de um silêncio tão eloqüente que todos os pássaros o escutavam e vinham pousar no seu ombro, como se numa árvore.

Que o Manoel tem mais de 200 caderninhos caprichosamente produzidos por ele.

Que as folhas do caderno são o açúcar que Manoel cobre de formiguinhas.

Que a Stela, amor da vida inteira, tem ciúmes do Manoel porque ele é muito assediado.

Que o Manoel, riso satisfeito dos ciúmes de Stela, diz não passar de um escombro, uma ruína – o poeta se une umbilical à sua matéria de eleição.

Que o poeta (Manoel e todos) não sabe fazer nada de útil, exceto o que tantos e tontos fazem – por exemplo: comprar pão às seis horas da tarde.

Que o poema é um inutensílio, mas é com ele – só com ele – que se transvê o mundo.

Que poesia é voar fora da asa.

Que eu fiquei o tempo todo com uma neblina nos olhos e com um riso de contentamento se insinuando nos lábios.

De tudo o que escrevi, Só dez por cento é mentira? Não. É tudo verdade.

© Nota de canapé: Título de uma mostra de documentários que acontece em Sampa todos os anos, sob o comando de Amir Labaki.


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