O jogador ©
Categoria: Literatura

Gosto de pensar que a vida é um jogo e eu um improvável bom jogador. A minha vida é pontuada de lances extraordinários. O extraordinário é que nenhum desses lances resultou de perícia, cálculo e sim do mais puro acaso, da mais inesperada gratuidade. De onde me vem essa sorte no jogo tão duro da vida? Impossível saber. Jogando sempre, cá estou no segundo ‘tempo’ desse jogo. A disposição é de cumpri-lo até o fim (desejo chegar aos 90), mas estamos todos sujeitos à afoiteza das glândulas, aos descompassos do coração e a tantos outros acidentes que podem nos tirar do jogo antes de cumprido o ‘tempo’ regulamentar. A glória máxima nesse jogo é ter direito à prorrogação. Eu adoraria. Mesmo se não conseguir, terei saído para fora do círculo do tempo com a imensa gratidão de, involuntariamente, ter sido agraciado com lances inesquecíveis. Viver é muito difícil, mas, parafraseando Clarice Lispector, não requer de nós mais que o aprendizado da própria vida se vivendo/jogando em nós e ao redor de nós.

© Nota de canapé: Livro de Dostoiévski, o russo fundamental.


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